Sobre esferas e receptáculos

De onde você caiu?

Daquele planeta ali, o verde. Mas eu não caí, eu me joguei.

Jogou-se? Mas por quê?

Porque eu vivia à margem do meu planeta. Cada vez que ele girava, eu fazia um grande esforço pra me manter nele. Eu nunca parava. Ele girava, eu me agarrava às rochas, ao que estivesse disponível, pra continuar a minha vida ali, no planeta. Depois de tantos anos, nem havia mais desafios, nem havia mais medo de cair. Eu conhecia o planeta como um todo, todos os seus movimentos e suas rochas. Conseguia fazer tudo até sem pensar. Foi quando eu realmente me cansei. Aquela rotina tornava-se cada vez mais entediante e sem objetivos. Como estava já tão acostumado, resolvi olhar pra baixo e vi este planeta. Ele brilhava tão cintilante e convidativo. Então soltei-me. E você, por que está aqui?

Eu pulei. Veja bem, eu morava naquele planeta grande e vermelho logo alí. Eu me sentava no topo dele todas as tardes pra observar o universo. Foi quando eu vi, logo a minha esquerda, um planeta lilás, tão cheio de vida, e nele havia essa linda mulher, vestido branco e longo, cabelos castanhos curtos e olhos verdes vibrantes. Mas ela parecia sempre tão triste. Deitada na sua cama de flores, nem os pássaros ou as borboletas pareciam alegrá-la. Parecia se sentir só com tudo aquilo que estava ao seu redor. Um dia, subindo pro topo como de hábito, eu finalmente a vi em pé, na beirada do seu próprio mundo. Uma brisa leve batia nela e fazia com que sua roupa voasse suavemente para trás, parecia um anjo. Então ela sorriu e se jogou pra cá, onde estamos. E todos os dias que eu ia ao topo do meu planeta, olhava para a direção do planeta dela, sempre tão belo, porém agora tão vazio. Esse vazio me consumiu e nem mesmo o universo me animava nas tardes. E aí eu também pulei. Pulei e desde então eu a procuro.

Não deveria ter pulado, pensou. Mas como saberia que no meio da queda uma estrela cadente passaria de raspão e mudaria o seu percurso? Eis que ao invés de cair no planeta que tanto almejara, caiu num planetinha pequeno, negro e sombrio. Agora, além da tristeza que já acompanhara desde seu próprio mundo lilás, também sentia medo. Os dias eram escuros e as noites de um breu que mal se via um palmo adiante. E os sons. Gemidos, uivos, sussuros, não conseguia nem saber de onde vinham. Olhou pra cima, viu o planeta cintilante. Sentou-se numa rocha fria e começou a chorar. Jamais conseguiria ir para lá…

(Uma) Mão Amiga

Otávio passou dos quarenta, quarenta e sete para ser mais exato, e depois de muita insistência da esposa, foi ao urologista fazer o temido exame de toque…
Enquanto Leôncio tinha ouvido no almoço em família de domingo uma palavra que agora estaria para sempre na sua memória até o fim de seus dias: Vovô.
Os dois encontraram-se na sala de espera do Doutor Froes, conhecido urologista da cidade.  Otávio era o mais apreensivo dos dois, comentava com Leôncio que só estava ali por causa da esposa, que insistia que ele fizesse o exame, uma vez que já tem dois anos que ela mesma faiza exames de mama regularmente. -Antes uma mulher apertando o peitos de outra mulher do que um cara enfiando os dedos no cu do outro, não acha?!, indagou Otávio a Leôncio, que balançou a cabeça em sentido positivo e emendou, -É.. mas não é bem isso que me preocupa… Esse domingo agora, minha filhinha, o meu bebê me diz que tá grávida… pode uma coisa dessas?! Eu, com recém quarenta e nove e avô?! Meu mundo acabou… -Mas quantos…  Otávio mal terminou a frase e Leôncio suspirou -Vinte e três. Otávio achou a preocupação do homem desnecessária, afinal o que era um neto diante alguns minutos de um exame de toque? e continuou -Mas cara… são dedos no teu cu, pensa bem. É um troço embaraçoso para nós, homens porque imagina a situação…  E gesticulava de forma frenética, deixando Leôncio incabulado – Olha meu amigo, tu não me leva a mal não mas, um dedo ou dois na minha bunda não fazem lá muita diferença agora… meu mundo acabou, já te disse.
A secretária do Doutor Froes chamou Otávio, que levantou rapidamente e quando passou ao lado de Leôncio deu um tapa nos ombros do homem e disse que o manteria informado de como seria aquele exame. Leôncio deu um sorriso amarelo e deu de ombros para o que Otávio dizia.
Otávio entrou no corredor acompanhado da secretária. Sacou o celular e mandou um SMS para a esposa, dizia que estava num corredor escuro e misterioso e que talvez aquela fosse a última mensagem. Assinou o SMS dizendo que amava muito a esposa e que o testamento estava em um envelope dentro do roupeiro, caso ele não viesse a sair vivo dali.
Enquanto isso, na sala de espera Leôncio suava frio… A idéia de ser avô ainda não tinha lhe caído bem, a imagem da filha e o namorado anunciando que ele seria vovô não era das mais agradáveis, lembrou também da expressão de felicidade da esposa, essa sim ficou entusiasmada com a idéia. Foi analisando cada um dos fatos. O namorado da filha era bom sujeito, fazia faculdade de administração e trabalhava no escritório da família, não tinha com que se preocupar. A filha só estudava, estudante do quarto semestre de psicologia, era boa filha  nunca tinha dado nenhuma preocupação “Se bem que teve aquela vez que encontrei cigarros na bolsa dela…” pensou ele, mas aí lembrou que naquela época a filha tinha recém dezesseis anos e era coisa de adolescente rebelde, lembrou do choro da menina e do arrependimento… era uma boa filha afinal. Mas um neto? UM NETO? Não. Ainda não se sentia preparado para tal.

Continua semana que vem. 😉

Dias Negros – Capítulo I: Encontrando o Exército

A Humanidade vive sua hora mais negra. Não se sabe como ou nem mesmo de onde, mas quando esses “alienígenas” chegaram o céu se escureceu e 90% de todos os seres vivos do planeta foram mortos. Até mesmo os anjos foram aniquilados, caindo do céu, empapuçados em seu sangue dourado.

Mas havia um ex-soldado que lutou na Guerra da China em 2035, chamado Daniel Salamander, que descobriu que havia mais coisas entre o céu e a terra que suporia nossa vã filosofia, mesmo depois de ter visto aliens e anjos. Três meses depois deste evento apocalíptico, ele estava vagando pela Europa à procura de abrigo e comida quando foi encontrado por um vigoroso velho chamado Solomon Gama. Solomon, acompanhado por um punhado de homens, disse que era um padre antes da queda dos anjos, e que agora luta contra as hordas invasoras e está arregimentando um exército, por isso chegou até Daniel, que se espantou ao ver como aquele homem da Igreja andava armado.

– Você e mais vinte homens são tudo o que temos para deter os monstros do espaço? – ironizou Daniel.

– Nós temos consciência, jovenzinho, de que nosso grupo é muito pequeno perto do exército inimigo, mas é que você ainda não viu Gauthier, nosso amigo, lutando. – respondeu Solomon, com um sorriso no canto da boca.

Daniel ficou curioso, mas não perguntou nada. Aceitou fazer parte daquele grupo (afinal, sobreviver em bando é mais fácil do que sozinho) e caminhou junto a eles em direção a uma estação de trem – hoje abandonada – onde Solomon tinha uma locomotiva com suprimentos. Todos subiram a bordo e Daniel recebeu mais armamento (ele já andava com um fuzil militar russo) e munição, e ficou impressionado com todo o arsenal do ex-padre e seu grupo.

A viagem no trem, que teve algumas paradas durante o percurso, durou dois dias, e ao chegarem a algum lugar na fronteira entre a França e a Alemanha, Daniel notou que o céu ali era diferente, meio arroxeado, e como se o ar por ali fosse repleto de fragmentos, mas antes que pudesse tecer algum comentário, eles foram recebidos por um grupo de mais ou menos dez pessoas – com adolescentes e até mulheres, todos armados – que eram liderados por um homem desarmado que aparentava ter seus trinta e poucos anos, cabelos castanhos, longos e amarrados, vestes elegantes e nada militares, e que, sorrindo, estendeu a mão para Daniel e cumprimentou-o, dizendo:

– Olá, Sr. Salamander! Posso chamá-lo de Daniel? E antes que o ex-soldado tentasse esboçar uma resposta, completou: – Estávamos esperando por você. Soube da história de sua carreira militar e temos plena certeza de que seu auxílio será muito bem vindo à nossa congregação.

– Mesmo que eu ainda prefira nos chamar de “exército”. – retrucou Solomon, que emendou: – Daniel, este é que é o famoso Gauthier, nosso mais valioso soldado e nosso destemido líder.

– Já falei que eu ainda voto para que você seja o líder, Solomon… – disse Gauthier.

– Prazer, Sr. Gauthier! Respondeu Daniel, encabulado.

Uma coisa que intrigou Daniel é que desde o momento em que Gauthier estava há mais ou menos dois metros até o presente momento, uma tranquilidade e certo entorpecimento atingiram o seu corpo, como se a tensão que ele sentia todos os dias para sobreviver a este mundo e até mesmo a dormência que sentia nas pernas devido à longa viagem de trem tivessem milagrosamente desaparecido. Mas ele não falou nada sobre isso e guardou para si. Daniel havia parado para pensar sobre essa sensação e quando voltou a prestar mais atenção ao seu redor viu que Gauthier e Solomon estavam trocando informações, bem como os seus homens, e chegou mais perto para tentar entender o que estava acontecendo ali. Foi quando Gauthier disse:

– As criaturas se incomodaram com nossa movimentação e estão voando pra cá. Falou apontando para a parte roxa no céu, e Daniel pode vislumbrar um grupo de monstros alados se aproximando e todos os soldados ergueram suas armas em direção a eles. Quando as criaturas se aproximaram mais, todos abriram fogo e Daniel imitou o grupo, e algumas criaturas foram atingidas, mas como elas eram muito resistentes, somente duas ou três pareceram morrer aos tiros e tombaram ao chão. Quando a legião alienígena aterrissou, o número de disparos das armas aumentou e mais monstros morreram, mas eles se mostraram ainda mais ágeis em solo do que em pleno ar, e feriram muitos dos soldados. Foi quando Daniel presenciou a coisa mais incrível que um humano poderia fazer: ele viu Gauthier abrir a mão com a palma virada pra cima e uma espada materializou-se sobre ela. Gauthier empunhou rapidamente a espada e partiu em alta velocidade entre os monstros, cortando-os e dizimando todos. Todos os soldados ergueram os braços e gritaram urras e vivas, e Daniel sorriu, ainda tentando entender o ocorrido, quando olhou novamente para o céu e viu um grupo de novos aliens três vezes maior que o primeiro, desta vez sendo atacado por homens voadores que Daniel rapidamente percebeu se tratar de anjos de armadura que lutavam usando espadas e lanças. O exército também voltou sua atenção para o céu e presenciou a batalha dos seres celestiais contra os monstros invasores, numa batalha que durou entre 3 a 5 minutos.

Os anjos aterrissaram próximo aos homens armados e foram recebidos calorosamente pelos soldados, e caminharam em direção a Gauthier. Um deles, que parecia liderar aquele grupo de anjos com formas masculinas e femininas, tinha cabelos castanhos (ao contrário do resto que eram loiros) e se ajoelhou em frente a Gauthier, imitado pelos outros, e disse:

– Senhor.

– Bom trabalho, Azrael! E então… Miguel se foi mesmo? – disse Gauthier.

– Sim, Rei dos Reis. Infelizmente nosso general foi obliterado pelos Gantali.

Todos olharam perplexos para Daniel quando este, de súbito, interrompeu a conversa, perguntando:

– Espera aí, quero tentar entender… Você é Jesus? Dirigindo a pergunta a Gauthier.

– Meu nome é Gauthier. Está certo que já tive muitos títulos, como Senhor, Filho do Homem, Nazareno, Emanuel, Cordeiro… E também Jesus Cristo.

Daniel quase não conseguiu acreditar e estava com a boca aberta quando olhou para todos os rostos sorridentes que os estavam olhando, quando Gauthier tomou novamente a palavra:

– Daniel, esse grupo de bravos homens e anjos está unido para resgatar o meu Pai e livrar nosso mundo dessas criaturas do mal. Você vai nos ajudar?

Trilha sonora:

La première fois

Cristina estava nervosa, pois depois do jantar de um ano de namoro com Felipe, iria dormir em sua casa…

Depois do processo seletivo, Jair acaba de passar seu cartão…

Leôncio acabara de ouvir uma palavra que agora estaria para sempre na sua memória até o fim de seus dias: Vovô.

Chegou o novo sorvete de romeu e julieta, Julia acaba de comprar um copinho na inauguração da sorveteria…

Cristóvão sempre odiou comida japonesa, mas hoje decidiu provar.

Otávio passou dos quarenta, e depois de muita insistência da esposa, foi ao urologista fazer o temido exame de toque…

Camila, bêbada numa balada, começa a olhar sua amiga Lúcia de uma forma diferente, e chega mais perto dela desejando um beijo…

Ingrid, depois de exaustivamente decorar e repassar o texto, experimenta a sensação de aguardar a deixa para pisar o palco pela primeira vez…

Texto feito para estrear o blog, com a colaboração dos membros do blog.

Todos adoram introduções

Olá.

Confesso cá eu que não tenho lá dom pra escrita. Por vezes gosto de me classificar como uma pessoa que gosta de ler, porém a preguiça e procrastinação têm vencido qualquer outra vontade que antes era apego e tratava com zêlo, a leitura. Pois bem no final da minha adolescência lembro-me de pegar livros de crônicas e devorá-los em pouco tempo. Hoje me arrasto pelas páginas, não pelo desprazer da leitura, mas só por ter sido consumida pelo tédio.

Posto o acima, decidi que gostaria de participar do blog de contos pra ver se algo dentro de mim se reacende e eu possa me (re)apaixonar com mais fervor pelas coisas que sempre gostei e andam agora esquecidas. Quem sabe esse processo criativo forçado dê-me bons resultados, ainda mais por estar cercadas de pessoas lindas neste blog.

Agradeço àqueles que convidei e toparam aceitar do blog e espero que renda bons frutos. Àqueles que nos leem, espero comentários, sugestões e, quem sabe, poderemos abrir um dia de contos de pessoas que gostariam de participar.

Beijones,

Abrindo as porteiras

Oláaaaaaa, gente amiga!

“Que blog é esse?”, você deve estar se perguntando. Calma, deixe-me explicar: um dia eu e meu amigo carioca Michel Souza (o Misha) conversávamos num mensageiro aí da vida quando de repente ele solta a ideia “Tô afim de fazer um blog participativo de contos”, e eu disse “Pô, demorô! Vamo lá!” e daí começamos a procurar pessoas pra escreverem com a gente. Olha, foi difícil…Daí nossa primeira “candidata” foi a minha queridíssima e paulista Rebeca Schutz. Um tempo depois ela sugeriu a participação do também paulista Nahuel Dias (que aceitou), que tem uma vibe “manganimesca” em seus contos e, numa noite de domingo qualquer, a Rebeca pescou no Twitter mais dois cabecinhas que confirmaram participação logo depois: Luís Venceslau, o paraibano que curte realismo fantástico, e o Léo Barcelos, meu conterrâneo (RS, sabe?), que escreve sobre o cotidiano.

Eu particularmente não tenho muitas experiências com contos, pois meu forte sempre foi escrever quadrinhos. Daí que tive o lampejo de usar uma ideia pra uma história de ficção científica (essa vai ser minha vibe, a princípio) em quadrinhos que eu vinha fermentando há meses na minha pútrida mente e então decidi transformá-la em contos mesmo até por que o “orçamento” é menor, né? Mas nem por isso que eu vou deixar de desenhar só por que é um conto, por isso segue um rascunho de alguns personagens da trama:

Gostou?

Ah, falando em opinião, quero muito que vocês participem, beleza? O Misha já começou criando o blog cheio de mimimi por que a galera participa pouco/nunca dos blogs dele (e dos meus também e de todos os blogueiros sem fama por aí), por isso vamos animar o rapaz, tá? E quem entrar no blog e não comentar, eu juro que rastreio o IP e mando a facção criminosa mais próxima da sua casa pra quebrar suas pernas. Estamos entendidos? OK.

Amanhã publicaremos um conto participativo (ou seja, escrito por várias pessoas) pra celebrar o descabaçamento do blog. Ainda vamos bolar os contos de desafio, um sugere ao outro escrever um tema aleatório e o cara vai ter que se virar nos 30 pra bolar uma história. E estamos pensando também em fazer um tema mensal, com cada participante escrevendo um conto com esse tema. Então vai ter muita coisa diferente e interessante vindo aí.

Ajudem-nos a divulgar o blog e se você curte ler contos, Conte Conosco e não saia daqui por que pretendemos postar um por dia, com diversos temas.

Abraços, beijos e até amanhã!

@reigilgamesh

Who run the girls? WORLD!

Brinks.

Só pra deixar como post provisório caso algum componente deste futuro blog tenha dado com a língua nos dentes e cheio de fogo na periquita saiu espalhando aos sete ventos  que tá de blog novo, vai ser legal, vamos encher suas vidas de cultura, blá blá blá… opa, esse já tem.

Enfim, esperem coisas boas, porque pessimista por aqui já sou eu.

Abraços e conte conosco: 1, 2, 3, 4, …