A verdade é um negócio do qual não dá pra fugir

“Talvez eu não vá mais embora”, disse ela secamente, quando o carro parou. Para qualquer homem apaixonado, ouvir isso seria como tocar o Céu, mas pra Armando, que de fato estava apaixonado, foi o início de um desassossego sem tamanho, sem precedentes. Até então, saber que Emília iria embora em um mês lhe deixava um tanto mexido, mas ao mesmo tempo a certeza de sua partida iminente era tranquilizadora pois lhe absolvia da culpa que o assaltava naquela sua primeira escapada. Tudo ficaria restrito àquele único encontro fugaz que guardariam pro resto da vida quase como um sonho. Seria como se não tivesse ocorrido. Mas parece que ele pressentia, ainda chegou a imaginar essa possibilidade: e se depois ela não fosse embora, como é que ia ser? Casado com uma, enlouquecido por outra. Ele não pensava em abandonar seu casamento, mas sabia que Emília era do tipo que lhe atraía facilmente. Aliás, já estava apoderado por ela desde o primeiro dia, e agora, após aquele que prometia ser o primeiro e último encontro íntimo, ele via que ela era muito mais magnética do que poderia supor.

Mesmo assim, ele preferia a idéia de que ela iria embora logo em seguida, e pra sempre, e o máximo que ficaria de tudo isso seriam aquelas poucas horas que acabaram de ter. Mas aí ela vem com essa, talvez ficasse na cidade, e seria uma questão de tempo para estarem incorrendo no mais deslavado e absoluto adultério, na lascívia continuada. Seria a instituição da luxúria, imperdoável e criminosa. Ele não queria isso, mas a verdade era que não se seguraria caso ela permanecesse por perto. Daí o seu tormento quando ela lhe falou que poderia não ir mais embora. Não sabia o que pensar. Era assim que entendia como uma coisa poderia ser boa e ruim ao mesmo tempo. Não só ruim, como terrivelmente ruim, mas as compensações… Ah, as compensações, maravilha era pouco. Enfim, já se viu mentindo, inventando histórias, tendo sustos, se escondendo, tentando abafar de todo jeito a vida paralela de libertino que se desfraldaria no próximo telefonema.

Quando chegou em casa, encontrou a esposa dormindo. Com o remorso lhe fervendo as orelhas, entrou nas pontas dos pés, trocou de roupa no escuro, mas ela acabou acordando. “Se quiser jantar, eu deixei lasanha no fogão”, disse ela com voz de sono. Ele concordou e, sem dizer nada, se deitou ao lado dela. Quando ele terminou de se cobrir, ela se virou como se tivesse lembrado de alguma coisa. “Eu te amo, sabia?”, disse ela de olhos fechados, e ele respondeu que também a amava, e do fundo de sua alma atribulada ele sabia que não estava mentindo.

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