O Peculiar Reino de Ganimédia*

Um jovem de cabelos ruivos estava deitado com a cabeça sobre o peito de um homem mais velho, de cabelos e barba negros, e ambos estavam nus e suados, cobertos por um lençol em uma suntuosa cama. Tinham acabado de fazer amor. O mais velho se chamava Gorgel, e o jovem, Juliano. Gorgel nada mais era do que rei da Ganimédia, o mais próspero e poderoso reino do Ocidente. E Juliano era o seu atual conselheiro real.

– Você se lembra como nos conhecemos? – perguntou Juliano ao seu rei e amante.

– E como eu poderia esquecer, amor? – respondeu, voltando sua mente ao passado.

Dois anos atrás, no castelo do Rei Marlon, da Lavínia, o Rei Gorgel fazia sua primeira missão diplomática naquelas paragens, devido ao atual crescimento de influência que o reino lavínio tinha entre os pequenos reinados do Ocidente.

Gorgel também estava lá para tratar com o Rei Marlon uma aliança para o iminente avanço das tropas invasoras orientais. Após debater os assuntos burocráticos com o rei lavínio, Gorgel foi levado pelo mesmo ao Salão Comunal e viu o Príncipe Juliano pela primeira vez.

– Tão belo, jovem, gracioso, com seus trajes despojados, cabelos vermelhos caindo sobre a testa, exalando carisma… – descreveu o apaixonado Gorgel.

Juliano riu e replicou:

– Eu notei na hora que você não tirava os olhos de mim. Foi então que eu comecei a reparar em você e perceber que como aquele homem forte e distinto poderia ser mais interessante que qualquer rapariga que eu já havia corrido atrás no Reino de Lavínia.

Em menos de uma semana depois da visita de Gorgel, Juliano recebeu uma carta dele, onde ele descrevia o que sentia e suas reais intenções, deixando o príncipe atônito e ao mesmo tempo feliz. Marlon também recebeu uma missiva do regente da Ganimédia, solicitando a presença de Juliano em seu castelo para tê-lo como seu conselheiro real, estreitando assim os laços entre as duas nações.

Gabus, o atual conselheiro de Gorgel, foi deposto e rebaixado a duque, ganhando uma boa porção de terras como compensação, e participava de algumas reuniões dos fidalgos quando o rei precisava de opiniões diversificadas, como uma assembléia.

– E do dia em que você me nomeou arquiduque? Lembra de como Gabus ficou puto da vida? – perguntou sorrindo um nostálgico Juliano.

Gorgel gargalhou e revisitou suas memórias.

Há um pouco mais de um ano, Gorgel, cansado de esconder o que estava vivendo com Juliano, reuniu os fidalgos para anunciar que o seu jovem conselheiro era agora o Arquiduque de Senária (em homenagem ao Passo de Senária, local onde ficava a fazenda do rei e onde eles desfrutavam de seus momentos secretos), e deixou subentendido que os dois mantinham um matrimônio.

Gabus levantou-se da mesa, ofendidíssimo, e vociferou:

– Mas isso é um ultraje! Como pode o rei da Ganimédia destituir-me do posto de conselheiro real para em seu lugar colocar esse jovenzinho que mal entende da vida, e ainda por cima deitar-se com ele todas as noites como seu ele fosse sua esposa! Estamos condenados a ser amaldiçoados pelos deuses a viver sob a égide de dois reis e nenhuma rainha?

Todos os fidalgos ficaram horrorizados tanto com essas informações quanto com a ousadia de Gabus levantar-se contra o soberano. E os soldados, leais ao rei, aproximaram-se do velho exaltado, de lanças em riste. Gabus não se intimidou, e prosseguiu:

– E pelo que vejo vossa excelência real não deixará herdeiros para o trono, deixando o nosso reino à mercê de conquistadores! Eu me recuso a viver neste castelo e cuspo sobre tudo aquilo que vier do trono da Ganimédia! – concluiu o velho, cuspindo sobre a mesa.

Gorgel manteve a compostura, mas não podia esconder uma veia saliente em sua fronte, e respondeu:

– Gabus, vou lhe dar duas opções para tamanha traição e ousadia: ser decapitado ou encarcerado.

 ♦

– Você teria decapitado o velho se não fosse a minha intervenção, não é mesmo, querido? – indagou Juliano.

– Era o que ele merecia por me desprezar e me humilhar diante dos outros súditos. – Gorgel usou um tom mais grave para responder.

– Jamais deixaria meu amor e senhor matar um homem por ele ser ignorante e preconceituoso, mesmo eu tendo sido ofendido no processo. – disse Juliano.

– Já matei por muito menos, amor. E na guerra ceifei muitas vidas para defender meu trono. – respondeu o rei.

– Nesse caso é diferente. E lembre-se de que foi com a minha chegada que você mudou sua política de vida, tornou-se mais justo, e até ensinou aos seus soldados que se todos os irmãos de armas ganimedianos se amassem como nos amamos, teríamos o exército mais imbatível que já caminhou sobre a Terra. – concluiu Juliano, deixando seu senhor e amante cheio de orgulho.

Depois de alguns segundos de silêncio, enquanto recebia um cafuné de Gorgel, o jovem arquiduque perguntou:

– O quê o futuro reserva para um peculiar casal de soberanos como nós, meu rei?

– Do futuro eu nada sei, amor. Só posso garantir a você um presente feliz e com muito amor. – respondeu Gorgel, beijando seu jovem amante e iniciando um novo ritual de prazer carnal.

Dez anos depois, o rei foi acordado de madrugada por um de seus mensageiros e alertado de que o exército inimigo estava a dois dias de distância, e pediu para que o alarme fosse soado e seus homens se vestissem para a batalha. O embate entre os exércitos ocorreu às margens do Rio das Névoas, e o rei, contrariado, foi acompanhado do Arquiduque de Senária ao campo de batalha.

– Jamais deixaria meu rei e amor ir sozinho à guerra. – argumentou Juliano.

A batalha foi sangrenta e durou três dias, tornado as águas do rio vermelhas com o sangue dos caídos. Ganimédia saiu vitoriosa, acossando seus invasores, e não houve festejos pela vitória, pois o Rei Gorgel e seu amado arquiduque tombaram na carnificina. Alguns soldados sobreviventes relataram que encontraram os corpos dos dois de mãos dadas. O trono da Ganimédia passou para Arman, primo e único parente vivo de Gorgel, que era fidalgo de um reino vizinho.

O rei Gorgel pode ter morrido sem ter deixado descendentes, mas foi idolatrado por séculos por ser um rei forte e justo, e a Ganimédia tornou-se um renomado reino nos livros de História de todo o Ocidente por ser peculiar sendo o único que já teve dois reis e nenhuma rainha, período pelo qual era o mais próspero de todos daquela época.

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*O nome do reino fictício foi inspirado em Ganimedes, que na mitologia grega era um mortal que, de tão belo, foi raptado pelo próprio Zeus e passou a viver entre os deuses olimpianos.

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