Beatriz

Cada separação trás em si o eco de todas as outras anteriores. É se revolver em tristezas há muito decantadas, é exumar mortos antigos, e tornar a velá-los, a cada nova morte. Às voltas com a mordida atroz da nostalgia, Beatriz compreendia finalmente o que era aquilo que lhe deixava com dificuldade para respirar, de dormir, de viver. Ela percebia que, por mais que cada história tivesse o seu sabor próprio, todo desligamento trazia de volta sempre aquele mesmo sentimento de perda ao se dar de cara com o vazio do coração, mais uma vez, obsoleto. Toda uma existência, toda uma série de hábitos e coisas despencava num mar de desassossego, e era lá que ela esperava, à deriva, por um vento qualquer que lhe desse algum norte. Era esse sentimento que sempre chegava como um velho credor que retorna em busca de uma fatura que nunca é paga. Ou um senhorio, com quem se tem uma intimidade resignada, própria de quem tem uma dor crônica.

Doía também ter que reconhecer, com uma certa dose de mesquinhez, que André parecia ter superado tudo, quando esperava que ele ainda desse sinais de que sentia, se não saudade, pelo menos algum mínimo apreço por tudo o que vivera ao lado dela. Beatriz sempre soube que André era meio desatento, até um tanto superficial, mas não que fosse quase patologicamente frívolo a ponto de já ser visto por aí declarando seu amor por outra, e detalhe: menos de dois meses após o término do namoro. Tentava se conformar: “ele nunca se envolveu”. E como das outras vezes ela chegava a conclusão de que dera mais do que o necessário, de que se desculpou mais do que devia, de que foi mais legal do que o bom senso permitiria, e de que tanto empenho não foi o bastante. Fazia força para crer que maior parte da culpa pelo naufrágio não era sua, que essa seqüencia de adeus não era motivada por algo que ela tinha (ou não tinha) e que ela não conseguia identificar. Talvez fosse amorosa demais e, como reza aquele bordão (“a diferença do remédio para o veneno era a dosagem”), seus amados acabassem inadvertidamente intoxicados, daí só lhes restando partir.

Apesar de toda a vertigem, de todo o desconforto, Beatriz sabia que era nova demais para desistir de tudo, desistir de acertar. Era só o caso de encontrar a medida.

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