O gênero de Alison

Bruno conheceu Alison no primário. Eles tinham 15 anos e estudaram na mesma classe. Alison era um garoto mirrado, e Bruno era um atleta exemplar, jogava vôlei e basquete e tinha um físico invejável, além de ser alto. Bruno por muitas vezes flagrava os garotos das outras classes (geralmente mais velhos) praticando bullying contra o colega, e os repreendia, às vezes com socos e pontapés, às vezes com discursos inflamados sobre injustiça e covardia. Acabaram tornando-se grandes amigos e naquele ano Alison teve sua pele salva por Bruno diversas vezes. Até o dia em que ele precisou mudar-se com os pais para outra cidade distante.

Sete anos depois, Bruno trabalhava como supervisor num call center, e num belo dia reencontrou Alison numa seleção de candidatos.

– Poxa, rapaz, quanto tempo! – abraçou fortemente Alison, que estava crescido, porém continuava magro. –Que bom te rever! Está de volta à cidade?

– Sim, e agora pra ficar. Estou morando com minha tia e procurando emprego para ajudar a pagar minha faculdade.

E puseram a conversa em dia. No fim, Bruno contratou Alison, que começou a trabalhar naquela mesma semana.

Depois de longos anos distantes, aqueles dois rapazes, separados pelo destino, reacenderam a amizade, e passaram a sair juntos.

Numa noite, bebendo numa mesa de um bar escuro, Bruno perguntou:

– E os amores?

– Pois é, cara… Até hoje eu só tive uma namorada. Terminamos há um ano…

– Poxa, que pena! E por que terminaram?

– Na verdade foi ela quem terminou comigo… – respondeu Alison, encabulado.

– Vixe! E por quê?

Bruno já estava sendo inconveniente, mas como Alison confiava nele, não viu problema em responder.

– Bom… – começou relutante. – Já estávamos namorando por seis meses e nunca havíamos…

– Transado? – adivinhou Bruno. Alison consentiu com a cabeça.

– Nossa! E como você conseguiu isso? Se eu fico uma semana sem transar, já subo pelas paredes!

Alison sorriu com a espontaneidade do amigo. E continuou a história.

– Daí, depois de ela me pressionar por alguns dias, eu tive que contar a ela sobre o meu “probleminha”…

– “Probleminha”? E qual é?

– Eu sou hermafrodita.

Bruno recuou a cabeça e arregalou os olhos.

– Na verdade o que eu tenho é pseudo-hermafroditismo. Por fora, minha genitália é de uma mulher. Caso eu tivesse o hermafroditismo verdadeiro, eu teria as características de ambos os sexos.

Depois de alguns instantes de silêncio constrangedor, Bruno indagou:

– Nossa, e como você iria fazer com a sua garota..?

– Sei lá, eu também não sei, mas se as lésbicas transam, por que eu não poderia também? Eu a amava, e eu daria um jeito.

Bruno tentou imaginar a cena. Depois, perguntou:

– E ela terminou com você na hora?

– Não, ainda ficamos por mais dois meses. “Brincamos” algumas vezes na cama, mas não chegou a passar disso. E depois ela me deixou.

– Que triste, cara! Ah, mas vamos sair dessa vibe! Hoje vamos comemorar a vida e arranjar umas gatas! O que me diz?

– Ok. – Alison respondeu sorrindo.

E Bruno, durante a noitada, arranjou uma garota, enquanto Alison continuou bebendo. No fim da madrugada, Bruno acabou levando Alison pra casa.

– Então por isso que seu nome é de menina, né? Seus pais pensaram que você era uma garota quando nasceu, é isso?

Alison riu alto.

– Sim! – respondeu. – Obrigado pela carona!

– De nada! Amigos são pra essas coisas.

Bruno já estava saindo quando parou, virou-se e perguntou a Alison:

– Na boa, cara, não me leve a mal… Mas eu posso ver a sua…

Alison arregalou os olhos, e depois gargalhou.

– Hahahah! Você tá doido?? Eu tenho muita vergonha, e não saio por aí mostrando essas coisas. Não gosto de me sentir uma aberração.

– Tudo bem, eu entendo. – respondeu Bruno, resignado, e foi embora.

Trabalharam juntos e saíram juntos por várias semanas até o dia em que Alison esperava Bruno sair do banho no apartamento dele. Estava na sala vendo TV quando Bruno veio só com uma toalha enrolada na cintura. Ao passar pela frente da TV, a toalha “caiu” e Bruno ficou nu, de pé, na frente do amigo, que virou o rosto pro lado e perguntou:

– O que você pensa que tá fazendo, cara?

– Olha pra mim.

Alison virou o rosto lentamente e não conseguiu olhá-lo da cintura pra baixo, e assim fixou seus olhos nos olhos do amigo.

– O que você quer que eu veja?

– Quero que você me veja pra eu poder te ver também.

– Por quê??

– Por que eu te quero.

Alison engoliu a seco. Buscou forças no âmago de seu ser e respondeu:

– Bruno, para com isso! Você sabe que eu não gosto de homens.

– Nem um homem como eu? – fazendo um gesto com as mãos por volta da silhueta de seu corpo, num ar convencido. Alison foi obrigado a perscrutar o corpo do amigo, e viu aquele abdômen definido e aqueles braços torneados com certa inveja.

– Bruno, nós somos amigos. Por que você está me colocando nessa situação?

– Alison, eu te protejo daqueles que te batiam desde pequeno, e acho que era porque eu já te desejava desde lá.

Alison encostou a nuca nas costas da poltrona e emudeceu enquanto o amigo nu se aproximava dele. Bruno curvou-se sobre ele, olhou bem em seus olhos e beijou-lhe na boca. Era um beijo ardente e Alison sentiu uma gama de emoções diferentes, a maioria delas era boa. Não pode deixar de notar a pele macia do rosto recém barbeado de Bruno, e o cheiro mentolado da loção pós-barba, e do seu hálito (propositadamente?) de chiclete de morango. Bruno segurou-o com a mão esquerda pela nuca durante o ósculo, e pousou a direita na barriga de Alison, descendo lentamente até chegar entre as pernas. Alison levantou-se rapidamente, protestando, afirmando que aquilo era errado. Mas depois de muita conversa, os dois acabaram ficando em casa naquela noite. E tiveram sua primeira noite de amor.

Nas semanas seguintes pararam de sair nos fins de semana e trocaram o bar por um programinha a dois, assistindo a filmes, comendo pizza e outras “porcarias” e também fazendo… bem, vocês sabem o que.

Em um mês decidiram que estavam num relacionamento a sério, mas sem que ninguém soubesse. Os dois mantinham as aparências no trabalho, e pros olhos da família e dos amigos os dois só eram grandes amigos. Namoraram por um ano e sete meses e só acabou quando Alison descobriu que Bruno estava o traindo com uma mulher. Mas Alison foi feliz no tempo em que estiveram juntos.

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