O pingente

Deslizou a mão pelo colar e, entre os dedos, segurou o pingente. Olhava distante, com o pensamento fixo na voz da sua avó, que ecoava na sua cabeça. As suas últimas palavras. E depois de 3 anos ela ainda não sabia o significado de tudo aquilo. A avó, em seu leito de morte, colocou o colar nas suas mãos. Com a voz trêmula, apenas disse-lhe: proteja-o e jamais, eu disse jamais, aperte o botão. O pingente era parecido com um relógio analógico, com a exceção de não ter nenhum tipo de ponteiro e marcar 13 horas. Bom, ela não sabia se eram horas, mas haviam 13 posições no ponteiro. E, do lado, havia esse botão. Se houvesse ponteiros no pingente ela juraria ser, realmente, um relógio. De corda, claro, assim explicaria o botão na lateral. Ela olhou a fundo e percebeu que ele não girava, era de pressão. 3 anos com ele em volta do pescoço, protegendo-o sabe-se lá do quê ou de quem. Qual seria a utilidade daquela peça, aparentemente inútil?

Sua avó era cheia de coisas. Sua casa, de fato, parecia de alguma bruxa velha que estava fugindo da inquisição. Mas os tempos já eram modernos demais pra esse tipo de perseguição e, convenhamos, aquela velhinha que fazia um delicioso bolo de maçã não era nenhuma bruxa. Enfim, tirou da cabeça esses pensamentos, terminou o café e olhou pro relógio no pulso. Estava adiantada pro trabalho, mas como era novo, seria conveniente que chegasse cedo. Seria seu primeiro dia na livraria. Nada muito glamuroso, era uma pequena livraria local. Havia há alguns dias recebido uma ligação de lá, perguntando sobre sua avó e ela explicou o que havia acontecido. No meio da conversa, surgiu essa oportunidade de trabalhar lá e ela acabou aceitando. Estava apertada de grana há meses, sempre nesses trabalhos temporários que só sabiam explorar e explorar os empregados. Talvez numa livraria ela tivesse um pouco de sossego e, porque não, parasse em alguma coisa.

Chegou lá 15 minutos mais cedo. O lugar parecia abandonado, havia poeira em todo canto. Realmente aquele lugar precisava de mais empregados pra cuidar de tudo aquilo. Eis que surge, do fundo, uma senhora. A primeira coisa que aconteceu foi soltar um leve grito ao vê-la. Não pôde evitar, não bastasse o susto por ela aparecer do nada sua aparência não era agradável aos olhos. Ela simplesmente sorriu, já sabia quem que era, mas não era de se espantar já que o lugar não parecia ter muitos frequentadores, ainda mais antes do horário de abrir. Ela a apresentou o lugar, o que ela faria e tudo o mais. Depois falou da falecida avó e que eram amigas. E, curiosamente, perguntou se ela havia deixado algo. Na hora não havia percebido, ela apenas disse que a  avó lhe deixara a velha casa dela e que era onde ela estava morando recentemente. Então ela a fitou, ficou pensativa, deu um leve balançar com a cabeça e sorriu novamente, dizendo que precisava se ausentar.

Passaram-se 5 meses, desde então. Era seu recorde de permanência em um emprego. Mas lá na livraria não havia do que se queixar. Havia uma pequena freguesia, porém constante, era calmo, o salário nunca atrasava e o horário era tranquilo. Melhor ainda por ser perto de casa.

Numa tarde não muito movimentada, ela resolveu andar pela livraria, dar uma olhada nos livros, coisa até que fazia com uma certa frequência. Desta vez ela parou numa seção que não havia reparado antes, não estava entitulada como as demais, separando por gênero. Os livros eram todos de capa dura, cores escuras entre preto, púrpura e musgo. Um em especial lhe chamou a atenção. Parecia com o que a sua avó tinha em casa, no quarto onde ficam os livros. Ela se recordava pois recentemente havia limpado o quarto, já que desde que começara a trabalhar na livraria ganharam uma espécie de zêlo pelos livros. Decidiu que quando chegasse em casa, iria lê-lo. Mas talvez pudesse dar uma espiadinha nele ali mesmo mas foi interrompida pelo barulho da porta de entrada. Um cliente. E assim que saiu daquela seção, logo se esqueceu do livro.

No final da tarde, fechando o caixa da livraria, a dona chegou. No mesmo aspecto horripilante de sempre, mas depois de alguns meses já por lá ela já havia se acostumado com a sua aparência. Num deslize, deixou à mostra seu pingente e a dona o viu. Na hora seus olhos brilharam como os de gato no escuro. E aí então a velha perguntou sobre o pingente. A garota, num impulso, o colocou entre os dedos, os deslizando entre um e outro, e comentou a herança da avó. Em sua inocência medida, comentou sobre suas últimas palavras ao que a velha só acrescentou “estava certa”. Isso aguçou sua curiosidade no caminho pra casa. Ambas sabiam de alguma coisa e ela estava querendo descobrir o que aconteceria se ela apertasse o botão…

… continua no próximo.

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