Remediado

Finalmente, após anos de leituras modorrentas, conselhos aguados, e palestras inúteis, Walter tinha o que queria: autoestima. Mas àquelas alturas, já não era tão simples conseguir autoestima da forma como todos conheciam, em cápsulas, vendidas em farmácias comuns. Com muito custo, só após quase um ano de conversas, é que Walter teve como comprar a droga de um dos poucos traficantes que ainda restavam na cidade.

Walter, como muitos, desejava a droga criada pelo cientista, estilista de moda e excêntrico de plantão Laurent Rudovsky. Vinte anos antes, a empresa de Laurent se tornara a mais lucrativa da história ao conseguir sintetizar os componentes químicos que ativavam os neurotransmissores de pessoas assumidamente seguras e bem-resolvidas. Um dos grandes segredos do sucesso da droga e do êxito da empresa era que quanto mais as pessoas que se diziam seguras de si doavam a matéria-prima para a produção do remédio, mais vaidosas elas ficavam, o que tornava a fonte do remédio uma verdadeira jazida inesgotável. Mas em pouco tempo, passada a euforia dos primeiros anos, a solução que revolucionaria os costumes, a psicologia, as religiões, o comportamento e toda a cultura ocidental se tornara o inimigo número um da segurança e da saúde pública, pois havia gerado com ela uma geração de inconseqüentes que antes dos trinta já haviam cometido mais atrocidades do que o mais encarniçado dos torturadores nazistas. Isso quando eles mesmos não morriam, desafiando todos os limites do bom-senso, colocando a própria integridade em jogo, quando praticavam toda a sorte de crimes e aberrações sem se importarem se estavam sendo vistos ou se seriam pegos. Eram as bestas de um apocalipse que teimava em não vir.

O nível da anarquia chegara a tal ponto que os governos baniram a droga, decretaram o fim da empresa de Laurent e bloquearam todos os seus recursos. Tudo fora retirado das prateleiras e enquanto esperava-se que os efeitos da droga passassem em que a vinha tomando, as polícias do mundo inteiro intensificavam as fiscalizações e as blitz em busca de quem a comercializasse no mercado negro. Foi daí que Walter, de posse de suas últimas economias, conseguira a sua porção, uma cápsula apenas, que lhe permitiria ter a coragem, a audácia, e a sensação de poder que lhe faltara por toda a vida, desde quando, ainda no útero, era espremido pelo seu irmão gêmeo, com quem compartilhava a placenta.

Ele já planejara tudo: tinha a arma, faltava-lhe a coragem para usá-la, o que não seria mais problema agora. Demitido sem justa-causa, sem parentes, amigos ou heranças, só restou a Walter a idéia de que para fugir da mendicância total seria necessário conseguir uma alta soma de dinheiro à força. “Bem sucedido, bem sucedido”, repetia para si enquanto esfregava as mãos num impulso doentio. Daí, foi só esperar ser apoderado pelo mal-estar de todas as noites para poder tomar sem água aquela cápsula amarga e incômoda.

Logo cedo, na manhã seguinte, Walter seria visto caminhando a passos apressados pela calçada que levava ao banco, já sentindo os sintomas que uma cápsula de farinha não seria capaz de provocar.

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