Dos motivos.

Já era a terceira vez aquele mês. Mas desta vez ela levaria adiante.

Estava sentada na calçada, em frente a sua casa. O dia era de sol, que queimava sua cabeça. As pessoas passeavam pela quadra e levavam seus cachorros nas coleiras. Com pressa de algo, mas não se sabe o quê.

Ouviu uma sirene ao fundo, os bombeiros iam para algum lugar, socorrer alguém, apagar algum incêndio. Vai saber.

Usava shorts jeans preto desbotado, regata branca e uma camiseta larga e xadrez por cima. Estava descalça. Cabelos lisos e despenteados tapavam-lhe a cara. Jogou a bituca do cigarro na via, soltou a fumaça contra o vento enquanto entrava pra dentro de casa.

Deixou a porta aberta. Passou pela sala, a tv ligada no cartoon network, sem volume. No chão roupas, livros, porta-retratos. A amargura de uma vida, solidão, descaso e desespero.

Subiu as escadas enquanto tirava a camiseta xadrez, a largando pelo caminho. Tropeçava nos próprios pés, como se estivesse embriagada. As lágrimas começaram a escorrer pela sua face, delicadamente caindo pelo seu corpo, algumas atingindo o chão, outras molhando sua regata.

Dirigiu-se ao banheiro, olhou-se no espelho. Riu. O doce sorriso da derrota. Encheu a banheira com água morna, abriu o armário e pegou a gilette. Deitou-se na banheira, ainda com roupas. Cortou os pulsos. Fechou os olhos.

Pela escada escorria a água. Toda angustia de uma vida, uma tristeza de toda a felicidade forçada. E agora, por fim, a paz.

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