A fera e o pássaro

A vida na floresta não é mais como foi outrora. Os bichos não vivem mais em paz, o terror e a preocupação dos pais em proteger seus filhotes são constantes. Nenhuma criança sorri mais desde que o sossego se foi. Todos estão perdendo noites de sono devido aos rumores de que a floresta tem sido visitada por uma terrível e misteriosa criatura, que até então tem sido chamada apenas de “a fera”, e a mata tem amanhecido com alguns animais cruelmente assassinados. Muitos bichos já haviam partido dali para procurar outro lugar para viver, e os que ficaram foi por não terem outra opção, apesar da atmosfera tensa que cobria o lugar.

A fera tem sido descrita de várias maneiras diferentes, porque cada bicho que afirma tê-la vista descreve-a de um jeito, pois cada animal tem uma visão, imaginação e medo diferentes, mas a mais assertiva (dita pelos animais mais “confiáveis”, com sentidos melhores que a maioria dos outros) é de que a criatura tem as seguintes características: grande, alta, caminha sobre duas pernas como alguns macacos fazem, é peluda, tem chifres como os de um veado, garras prateadas, longas e afiadas, e muitas das vezes em que foi vista estava envolta numa névoa fedorenta que parecia acompanhá-la por onde ela fosse. Claro que boa parte dessas descrições pode ser equivocada, isso porque os “felizardos” em vê-la ou estavam muito longe, ou era à noite ou o medo não permitiu que chegassem perto para obter mais detalhes. Mas ninguém poderia recriminá-los por isso, pois o temor era unânime.

Toninho era um jovem cotovia macho muito curioso, que não estava assustado como todos os outros jovens de sua idade, e sempre que sabia de alguém tinha visto a fera recentemente ele ia voando para encontrá-lo e acabava sentado no círculo que se formava ao redor da “testemunha ocular” enquanto a história sobre o encontro com a criatura era contada. Naquele círculo de ouvintes, a maioria era de adultos que estavam ali para coletar maiores informações sobre a ameaça e assim tomar as devidas precauções (caso elas houvessem). Toninho ficou muito excitado com o que ouviu e voltou voando rápido para sua toca e partilhar a notícia aos seus familiares, pai, mãe e irmão mais novo. Juno, sua mãe, ficou aterrorizada com o que o filho disse, e o Sr. Safiro recomendou a Toninho que não mais saísse da toca sem avisá-los, pois a floresta agora era um lugar perigoso demais. O jovenzinho foi dormir tarde naquela noite porque não conseguia pegar no sono, pensando em como era e que tipo de bicho era essa fera.

Amanheceu. Toninho acordou, olhou ao redor no oco da árvore onde foi construída a toca em que morava e viu que seu pai não estava, e que sua mãe e seu irmão menor, o Cadu, ainda dormiam, encolhidinhos num canto da toca. Saiu e fez o que fazia todas as manhãs: tomou “café da manhã” (ciscou entre as folhas caídas no chão próximo às raízes da árvore onde ficava sua toca e comeu algumas larvas e insetos que àquela hora ainda dormiam); depois foi procurar seus amigos – um rouxinol, dois pardais e um pintassilgo – para brincarem entre os galhos das árvores na circunvizinhança. Toninho sugeriu o clássico pique-esconde, mas Jofé, o pintassilgo, protestou dizendo que não, pois seu pai o havia alertado, na noite anterior, do perigo de voar pra longe e ser pego pela fera. Toninho insistiu e foi apoiado por Taleu e Pipo, o rouxinol e um dos pardais, respectivamente. Depois de muita discórdia, Jofé voltou pra casa, pois não queria desrespeitar o pai (e em parte porque estava verdadeiramente muito assustado com os ataques), acompanhado de Julinha, a irmã de Pipo, que era conhecida por ser muito medrosa. Brincaram Taleu, Pipo e Toninho de pique-esconde, e num primeiro sorteiro Taleu era quem pegava. A cotovia e o pardal voaram para direções diferentes enquanto o rouxinol contava até 20, com os olhos fechados. Toninho encontrou um vão debaixo de uma enorme pedra marrom e usou-o como esconderijo, mas depois de passados alguns segundos, a cotovia ouviu um barulho na mata, acompanhado de um “gorjeio” que nunca ouviu antes, e foi conferir, voando sorrateiramente por sobre a pedra. Teve que aguçar seus olhos para tentar entender o que se tratava, pois ali naquela clareira tinha uma névoa muito densa e mal cheirosa, que parecia vir de um pequeno sol acomodado no chão. Se seu pai estivesse ali, ele diria que aquilo era conhecido como “fogo”, pois Safiro o conhecia, mas Toninho não. Nisso, enquanto o gorjeio estranho aumentava de volume, uma figura apareceu de costas, no meio naquela neblina, e o passarinho tomou um susto, pois aquela era a fera, conforme havia descrito a testemunha um dia antes. E lá estavam os chifres como os de um veado, os pelos nas costas, e de pé sobre as duas patas. A fera fizera mais uma vítima: um pequeno cervo estava morto no chão com a barriga aberta, e a criatura estava arrancando suas tripas com as patas de cima. Toninho ficou paralisado, parte por medo, parte por curiosidade em querer vê-lo de mais perto, e de frente, para saber como ele era, e naquele instante uma lufada de vento soprou a névoa, que na verdade não era névoa e sim fumaça, e a fera estava ali na sua frente, com 100% de visibilidade. E lá também estava, na mão direita da criatura, uma estranha garra cromada, comprida e afiada. Se o pai de Toninho ali estivesse, ele teria dito que aquilo não se tratava de garra, e sim de uma faca, que era um utensílio usado pelo homem para cortar sua comida. A fera virou-se e olhou na direção da cotovia, e o passarinho agora via o sangue nas mãos dela, e também pode ver seu focinho, diferente de tudo o que tinha visto em sua curta vida. Se seu pai estivesse ali, diria que a fera não passava de um homem vestindo a pele e os chifres de um veado, pois Safiro já havia visto alguns humanos antes (e sempre os temia, pois nunca havia ouvido falar bem deles). Os olhos do homem estavam brancos, como se estivesse em transe, e na sua voz estava uma língua misteriosa claramente invocando algum feitiço proibido, mas Toninho nunca chegou a pensar nisso, pois ele não conhecia nada. Por fim foi tomado por um pavor gigantesco, virou-se e tentou voar pra bem longe, de volta pra sua toca, mas depois de dar meia dúzia de batidas de asas, a cotovia ouviu o homem gritar algo ainda naquele idioma antigo, e perdeu a consciência. Toninho não voltou pra casa e sua família nunca mais o viu novamente. Todos eram só tristeza e dor naquela família de cotovias.

Num vilarejo ali perto, o conhecido feiticeiro Baltazar agora era visto na companhia de uma cotovia, ora pousada em seu ombro, ora vigiando a casa do ocultista, do umbral do portão, e atacava quem quer que chegasse perto do velho sem o consentimento do mesmo.

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