A salvação de Cristiano

Quando foram acudir Cristiano depois do tiro, o assombro foi geral: ele estava sorrindo. Dado o estranhamento com o morto, ninguém se preocupou em interpelar o delegado Joaquim por ter atirado num homem desarmado. Depois do tumulto na praça, a mãe de Cristiano foi dormir certa de que aquele sorriso inconveniente parecia resumir tudo o que ele fora em vida.

Largo como aquele sorriso era o próprio Cristiano, um homem grande em tudo, no corpo, nos gestos, e nos ímpetos. Uma vez disse que ia à capital trazer uns mantimentos para o negócio que ia abrir e assim se passaram sete anos. Na volta, achou engraçado como tudo se mantinha igual atrás dos Três Grandes Montes, que eram a própria expressão da indiferença do lugar pelo o que se chama tempo. Mas naquele dia, enquanto jantava em pé na cozinha atulhada de amigos, Cristiano fora pego desprevenido pela única novidade daquele remanso inerte –  a visão de uma garota passando no meio de todos, como se não fizesse parte deste mundo.

– Fale com seu irmão. – disse a mãe, com dureza.

Além do típico desconforto dos anos em que se está à deriva entre a infância e a fase adulta, Socorro ainda teve que vencer a vergonha de ter que ir falar com um indivíduo de quem mal se lembrava. Pudera: quando Cristiano foi embora, Socorro tinha seis anos incompletos, e à essas alturas, seu irmão não passava de um completo estranho. A menina foi arrastando os pés até ele e antes que pudesse dizer alguma coisa, a mãe atalhou:

– Está noiva.

Foi mais um golpe para Cristiano: sua irmãzinha já estava para casar. Na hora nem se deixou levar por essa, mas nos dias seguintes tratou de questionar a torto e a direito os pais que deixaram a filha noivar, depois se aquele noivado era certo, e por fim enveredou por insinuações sobre as intenções do noivo, que se tratava logo do ilustríssimo delegado Joaquim Benevides de Queiroga Maia, herói de três guerras locais, e sobrevivente de mais um sem número de motins e ciladas em nove estados da federação.

A coisa chegou ao ponto de os pais de Socorro recomendarem ao futuro genro que passasse uns tempos sem visitar a noiva. E foi com o espírito contrariado pelo conselho que o delegado Joaquim deu de cara com Cristiano na bodega de Antônio dos Óleos. Encorajado pelos conhaques, Cristiano tratou de lhe dizer os mais desbragados impropérios, e quando viram os dois indo juntos para a praça, todos já sabiam o que ia acontecer. De longe não dava pra ouví-los, mas via-se que Joaquim, diante da postura ferina de Cristiano, se segurou até não poder mais. Aí veio o tiro, o susto, e a queda. Por baixo da dor, naqueles últimos fiapos de consciência que ainda restavam inteiros, Cristiano lembrou do piado da coruja em cima de sua casa, na noite anterior, e assim compreendeu que encontrara exatamente o que procurava, embora antes não o soubesse com clareza. Como outras das suas idéias radicais, para ele era melhor acabar logo com tudo do que ter que viver perturbado por um amor que não podia se realizar. E assim foi.

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