Vidas sitiadas

Joana trabalha de assistente administrativo no Edifício Buarque, na Av. Principal. Ela mora na Região Metropolitana e acorda às 05h30 pra chegar ao trabalho às 07h30 para preparar o café para a diretoria. Mesmo o esposo dela não concordando com isso, ela tenta dar o seu melhor porque é só com muito esforço que ela conseguirá uma promoção na sua empresa.

Paulo Félix tem 53 anos e trabalha como recepcionista no prédio da Lótus Empreendimentos, também na Av. Principal, mais no começo, próximo à Av. Campo Largo. Ele é casado com Lorna e têm um filho chamado Fabrício, que nasceu com Síndrome de Down, e está doente, internado no hospital. Essa noite foi a vez de Paulo passar a noite com o filho, e de lá ele foi direto pro trabalho. Dormiu apenas duas horas naquela noite, e já tomou três copos de café forte pra se manter acordado e continuar trabalhando.

Rafael está no primeiro mês em seu novo trabalho, na Gazeta Solar, que fica na esquina da Rua Conceição com a Av. Principal, no majestoso Edifício Apolo. Recém formado em Jornalismo, Rafael leva sempre consigo a câmera fotográfica profissional recém adquirida, para não perder nenhum furo de reportagem. Ele chegou às 08h20 na Gazeta, pois estava num bairro afastado cobrindo o despejo das famílias que invadiram um terreno particular. Estava abalado como aquelas pessoas estavam sendo tratadas pela polícia e as autoridades. “Como o governo pode dar as costas pra essa pobre gente?”, pensava. Acabara de comprar um cachorro-quente na barraquinha da esquina pra improvisar um café da manhã quando ouviu gritos de uma multidão, vinda do começo da Av. Principal.

Do fundo das águas escuras do Lago Verne, que é circundado pela Av. Campo Largo, emerge uma criatura de 30 metros de altura, de forma humanoide e com aparência que oscila entre um peixe e uma salamandra, de pele escamosa na cor verde-escura, garras, e boca repleta de dentes pontiagudos, caminhava esmagando tudo a sua frente, urrando de ira. As pessoas corriam para todas as direções. Os motoristas tentavam escapar entre os carros parados e sobre a calçada, causando diversos acidentes, inclusive atropelamentos. O monstro fez movimentos rápidos com seus braços gigantes, arrancando a fiação elétrica dos postes, causando curtos e explosões.

Paulo ouviu a confusão e correu para a porta do prédio da Lótus e viu aquele monstro aterrador. Apavorado, correu para dentro de volta e, quando foi para trás do balcão da recepção tentar se proteger, sentiu o edifício tremer como se fosse de papelão, e fragmentos do teto começaram a despencar. Vendo que o local representava perigo, correu para a porta da frente de novo, pois era a saída mais rápida do prédio, e ao sair, pode ver a pata do monstro bem de perto, virou para o lado oposto para fugir da criatura, mas foi atingido por uma viga do prédio que estava sendo destruído pelo gigante, e morreu esmagado. Acabara de deixar Lorna e Fabrício à sua própria sorte.

Joana ouviu os estrondos e os gritos das pessoas e correu para a janela, no 3º andar do Ed. Buarque, e viu aquela cena horrenda. O monstro estava bem próximo, e por um momento titubeou, não acreditando em que seus olhos viam, mas resolveu agir e correu para o elevador, que já tinha umas 15 pessoas que acabaram de correr para dentro dele. Quando a porta estava quase fechando, ela correu e conseguiu entrar, se apertando entre as outras pessoas desesperadas, e o elevador desceu. Nisso, um urro ensurdecedor do monstro atingiu o prédio, e a energia foi cortada, ouviu-se uma pequena explosão e o cabo do elevador rompeu-se, derrubando o meio de transporte mais seguro do mundo e matando todos que estavam nele.

Rafael deixou cair o cachorro-quente no chão e parou por 30 segundos, contemplando o monstro que se aproximava dali, a passos largos, destruindo tudo. As pessoas que dele estava próximas já corriam para o lado oposto, e o trânsito parou, levando os motoristas a abandonarem seus veículos e correrem a pé dali para salvar suas vidas. O jovem jornalista liberta-se da estática causada pela surpresa e saca sua câmera, tirando fotos do monstro e do cenário ao seu redor. “Essas vão ser as melhores fotos do mundo!”, pensou. De repente a criatura urra, causando uma onde sônica devastadora, que estourou todas as janelas dos prédios da avenida, e destruindo parte de um deles, que em seguida Rafael notou se tratar do Edifício Buarque, a menos de uma quadra de distância. O rapaz refez-se do susto e tirou mais fotos, mas o sol em seus olhos não estava ajudando, então ele olhou ao seu redor e correu pra direita, subiu num carro que estava na sombra de um dos prédios e retomou seu trabalho, conseguindo mais fotos do monstro. Nisso algumas viaturas da polícia chegaram por trás e os oficiais gritaram para que ele saísse dali, enquanto atiravam no gigante com seus revólveres. Rafael estava mergulhado na adrenalina e não deu ouvidos, continuou ali, com um olho no visor da câmera, captando os melhores ângulos do maior furo da sua (curta) carreira. O problema é que o monstro se irritou ainda mais com os tiros dos policiais e chutou os carros à sua frente, e uma chuva de automóveis caiu sobre os oficiais, acertando alguns em cheio, enquanto a maioria conseguiu fugir. Um dos carros caiu sobre a parte da frente do que Rafael estava em cima, derrubando o desavisado rapaz no chão, que caiu deitado de costas. Quando ele se refez do susto e da dor, olhou pra cima e viu um poste caindo em sua direção. Tentou rolar para o lado, mas foi esmagado mesmo assim. Exceto sua câmera, caída ao seu lado, intacta, com todas aquelas fotos excelentes e que fizeram sucesso após sua morte.

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