Under pressure

Carlos conversava frequentemente com seus amigos sobre coisas do cotidiano. Certa vez conversavam sobre culinária, justo perto da hora do almoço, como se não bastasse estarem mortos de fome, tinham de comentar o que mais gostavam de comer. Carlos acabou confessando que adorava cozinhar, mas sentia um medo terrível de fazer feijão. Logo a ala feminina do bate papo começaram a rir do pobre coitado, diziam que era bem simples e fácil, sem mistério algum. Depois de muito tentar se explicar, acabou admitindo que seu medo se baseava em seu conhecimento de pneumática. Ilustrou vários acidentes de amigos, em outras situações que não culinárias, e como acabaram indo parar na terra dos pés juntos e todos admitiram que não tinham pensado por essa perspectiva. Se despediram e cada um foi para sua casa, finalmente almoçar.

Quando chegou em sua cozinha, percebeu que não aguentava mais comer só arroz com carne e algum legume. Reuniu coragem e tirou a panela de pressão do canto empoeirado de seu armário de panelas que ficava logo abaixo da pia. Teve de lavar porque uma aranha fazia sua panela de moradia e ela não seria um  tempero tão bom quanto linguiça paio.

– Alô, mãe?

– Carlinhos! Quem morreu? Você quase não me liga mais, seu ordinário!

– Também te amo, coroa. Vem cá, eu sei como fazer, mas queria confirmar. Pra fazer o feijão eu posso colocar quanto na panela, um dois quilos?

– Ah, usa a medida de meio quilo, isso meio quilo. Mas não esquece de escolher, senão você vai comer pedra!

– E quanto de água?

– Pode ser até os parafusos do cabo.

– Tá bom, mãe. Se eu sobreviver eu te ligo pra contar como ficou.

Fez tudo que sua mãe mandara. Tapou a penela que era uma coisa engenhosa e curioso ao mesmo tempo, uma tampa oval era bem incomum para ele. Verificou se ao fechar a borracha de vedação estava realmente vedando alguma coisa, deu uns três giros naquela ponta toda cheia de furo, por onde saía o ar quando a pressão ideal era atingida.

Como ele estava um pouco nervoso de deixar aquela bomba atômica sozinha, como se sua simples falta de atenção, pudesse desencadear uma reação que faria a panela derrubar o prédio de onze andares. Foi no seu quarto e pegou o livro que estava lendo aquela semana e colocou um banco de lado do fogão. Não muito perto para não ser pego numa possível explosão. Não conseguiu ler uma linha sem que desviasse o olhar para o fogo que aquecia o fundo da panela. Impossível descrever o que ele sentiu quando a pontinha começou a girar liberarando o ar que se comprimia dentro da panela devido ao calor, foi um misto de nostalagia, saudade e preocupação mortal. Anotou o horário que começou a apitar e saiu da cozinha, colocando seu celular para despertar. Passado o tempo necessário para o cozimento, desligou e colocou debaixo da água para resfriar a tampa, ele poderia escrever um livro com as recomendações de sua mãe para este momento. Amassou e temperou o feijão. Todo animado serviu-se um prato e provou. Foi correndo para a sala e pegou o telefone.

– Mãe? A senhora poderia me mandar feijão congelado pelo sedex?

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