A mãe do milagre

Foi com um indisfarçável horror que Sofia tomou conhecimento da tradição que regia aquele lugar. Só agora ela compreendia aqueles olhares que lhe receberam a três dias atrás, e na hora ela não entendeu se era porquê era nova na cidade ou se era porquê trazia uma barriga fenomenal de mais de nove meses de gravidez. Fora assim que Sofia chegara à Natividade, levada às pressas para ter o seu filho junto à sua madrinha, bem longe do surto de rubéola que prostrava metade da capital. Já recolhida ao seu leito de parturiente, em vias de dar a luz a qualquer momento, Sofia deu de cara com a estranha história que aos poucos as mulheres do lugar foram deixando escapar. Falavam de uma moça que, ainda em tempos coloniais, teve que fugir grávida quando soube que a mulher do seu marido planejava tomar-lhe o filho. Embrenhada naqueles matagais, a mulher encontrou abrigo num casebre esquecido, onde teve o seu parto precipitado pelo cansaço da fuga. Ela teve que fazer tudo ali, sozinha, e no escuro, sem água nem um trapo sequer para envolver o menino. A criança nasceu bem, mas a mulher, fraca, faminta, e com sede, clamou aos céus por ajuda, e no meio daquela angústia para se manter viva e cuidar do recém-nascido, teve que comer a própria placenta. Milagre ou não, o ato extremado lhe garantiu o fiapo de energia necessária para que agüentasse até que um viajante lhe encontrasse, e então lhe levasse para o povoado que ganharia o nome de Natividade.

Desde então, dada a história da mulher sobrevivente, da devoção que alcançou, e das bênçãos a ela atribuídas, a pequena população do lugar tem concentrado seu culto e a sua fé em torno das placentas das grávidas, que após os partos eram repartidas para a toda a cidade, e cada um que a consumisse da forma que achasse melhor, num ritual que todos acreditavam ser milagroso. E acreditavam nisso com tanta força que vários padres acabaram sendo expulsos do lugar por não concordarem com a prática. Sofia também não concordava, e tremia de asco enquanto ouvia tudo aquilo como se fosse a mais normal e corriqueira das histórias. Ela, que sempre vivera longe de atavismos e crendices, que havia estudado, não queria participar desse espetáculo insano que era praxe na cidade, mas, ao mesmo tempo, ela percebia que a sua atitude avessa à tradição não seria levada em conta diante da fé inabalável que a população carregava.

E começou a ficar com medo daquela gente toda, da falta de escrúpulos, de leis, de autoridade, e do barbarismo em que viviam metidos e que só agora se ela dava conta. À medida que iam passando os dias, e o parto se tornava iminente, a frente da casa ia sendo visitada por um número maior de pessoas, todos interessados em um pedacinho que fosse daquela placenta que, como na história da mulher, lhes dariam uma nova vida e toda a sorte de dádivas e benesses bem típicas da intervenções divinas. Sofia, dentro da casa, ouvia o burburinho crescente vindo do lado de fora, e estava vendo a hora a turba invadir a pequena casa para arrancar-lhe do ventre a sonhada placenta com o filho e tudo.

Aterrorizada por essas imagens, confusa com tanta exasperação, Sofia de repente se viu sozinha e perdida no meio de um matagal, após fugir sabe-se lá como pela porta dos fundos enquanto todos dormiam. E enquanto eles repousavam no sono certos de que em breve receberiam o toque do sagrado através da placenta de Sofia, ela, sozinha, lá no meio daquela picada escura, às voltas com toda aquela vertigem dolorosa, descobria que quando lhe contavam a história da mulher, ela não estava se imaginando no lugar daquela mãe em desespero, grávida, em fuga, mas sim estava vendo a si própria, o próprio futuro, que agora vivia e que se tornava ainda mais incerto com as primeiras pontadas das contrações em seu útero de mãe em desassossego.

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E o meu desafio vai pra Rebeca. O tema é  “amor”. Boa sorte. =D

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