A viúva e a sacerdotisa

Teresa sentia muita falta de seu marido falecido. Pensava nele todos os dias, nos primeiros minutos da manhã, logo após se levantar da cama; enquanto fazia o almoço e se sentava na mesa pra comer; quando ia à feira; quando assistia a novela; e quando se ajoelhava na beira da cama na hora de rezar.

Karina era uma famosa vidente da cidade grande e há dias viam-se cartazes colados pelo vilarejo anunciando sua chegada. E hoje ela finalmente chegou, com sua tenda púrpura, adornada por cristais e espelhos. Já se formava uma fila que se estendia por meio quarteirão de pessoas querendo consultá-la. Teresa ouviu falar que ela lia o passado e o futuro, e que sabia sortilégios poderosos para trazer diversos tipos de benefícios, todos com preços altíssimos. Depois de duas horas na fila, enfrentando sol e o furor das outras pessoas que contavam causos e especulavam o que Karina teria a lhes dizer, chegou a vez da viúva Teresa ser atendida. Dentro da tenda, ela viu a vidente cercada de diversos artefatos místicos e esotéricos, e não conhecia metade daquilo. O ar ali era denso e opaco, devido ao insenso. Uma vez sentada na mesinha circular que ficava no fundo da tenda, Teresa ouviu a voz doce de Karina:

– É a sua primeira vez, querida?

– Sim. – respondeu, encabulada.

– E o que você procura?

– Quero saber como está seu marido.

– Por que? Vocês se separaram?

Teresa se sentiu ultrajada e, de olhos arregalados, cara amarrada e tom de voz nada amistoso, respondeu:

– Claro que não! Ele morreu há três anos, na guerra.

– Quem lhe contou isso? O Oswaldo? Oswaldo Gomes da Silva?

Teresa mudou a expressão, agora espantada.

– Ele está bem vivo, querida. Vive numa cidadezinha no interior de Minas, está casado de novo e tem uma filhinha linda.

A viúva ergue-se da cadeira, pôs as mãos sobre a mesinha e bravejou:

– Isso é impossível! Uma mentira! Meu marido jamais faria uma coisa dessas comigo! E como você sabe o nome dele?

– Eu sou a vidente aqui, esqueceu?

Teresa deu meia volta e saiu correndo dali, limpando as lágrimas do rosto.

– Ei! Volte aqui! Você me deve R$ 50!

Na saída da tenda, a viúva foi pega por dois brutamontes que trabalhavam pra vidente e, por consequência, levada à delegacia. O delegado não poderia deixar que a reputação do vilarejo fosse manchado desse jeito perante à uma atração nacional que era a vidente Karina. E Teresa foi presa, pois estava desolada e não quis pagar para aquela mulher que lhe trouxe tal infortúnio.

E Oswaldo? Estava vivo mesmo, e casado com Selma, uma mulher que se apaixonou pelo cabra casado durante a guerra e, como ele era fiel, recorreu a um dos sortilégios de Karina para fazê-lo amá-la incondicionalmente. E foi Selma quem mandou um mensageiro pra casa de Teresa três anos atrás para avisá-la da “morte” do esposo. Selma era rica e costumava ter tudo o que queria, e quando não tinha por mérito próprio, comprava.

Um dia, Karina voltou e reencontrou Selma, e disse a ela que conheceu Teresa e todo aquele drama.

– Bem feito praquela vaca! Ninguém mandou ela ser sonsa e perder o homem dela pra mim.

– Mas ela não perdeu, foi roubada.

– Como ousa me difamar, sua bruxa? Eu paguei – e bem – pelos seus serviços ou não? Quer mais dinheiro? É isso, sua golpista?

– Não, eu só quero mostrar a você que tudo que vai nessa vida, volta. – disse Karina, e foi embora.

Naquela mesma noite Selma morreu engasgada com uma casca de pão. Oswaldo acordou do feitiço e, ensandecido, fugiu da cidade. A filhinha dos dois foi abandonada e levada para um orfanato.

Ao chegar no seu lugar de origem, bateu na porta da casa de Teresa e não foi atendido. Uma vizinha nova, que não chegou a conhecer o homem, disse-lhe:

– A Teresa não mora mais aí, moço. Ela foi embora do vilarejo com o novo namorado.

– N… Novo namorado!? – ele perguntou, incrédulo. E, olhando pro chão, tropeçando, lentamente, vagou incerto até à praça.

Karina estava certa: nessa vida, o que vai, volta.

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