A primeira noite de Ramiro

Tempos depois, quando se lembrasse do dia em que Adelaide batera na sua porta, Ramiro teria certeza de que aquele fora o momento mais difícil da sua vida. “O senhor pode me arranjar um copo d’água?”, disse a moça com a firmeza de quem não tem tempo para parecer desamparada. De fato, ela não precisaria dizer nada para que se atestasse o seu real desamparo. Mas apesar do cabelo desgrenhado, do pó do rosto, e dos andrajos, não passaram dois segundos para que Ramiro lhe reconhecesse. Durante anos desejou aquele reencontro, mas depois de um tempo, passou a querer tudo no mundo, menos revê-la. Na época em que ela bateu na sua porta, após os quinze anos de sumiço, Ramiro já sentia um avesso de saudade, era uma repulsa pelo passado como um desfigurado tem pelo espelho. Mas a questão era que Adelaide estava agora diante dele, e ele não sabia o que fazer.

Não só sede, ela também tinha muita fome, nem sabia há quantos dias não comia. E Ramiro lhe serviu prontamente, lhe atendeu em tudo, sem dizer uma palavra, sem fazer nenhuma menção ao passado, nem ao que viveram, nem ao que deixaram de viver. Junto àquele silêncio perturbado, Ramiro carregava um indisfarçável estupor, semelhante ao de quando a viu pela primeira vez. “O senhor mora sozinho?”, perguntou ela, e Ramiro, sentado à sua frente, com os olhos vidrados, disse que sim com a cabeça, sem atinar para as mesuras sem propósito de alguém que lhe fora tão íntimo. Depois da sua vergonha pública, Ramiro se mudara para uma propriedade fora dos limites da cidade, mais para se livrar do peso daqueles malditos olhos piedosos, e de toda a compaixão coletiva que a sua desgraça lograra. E Adelaide, mesmo exausta e faminta, ainda conseguia ter lucidez para estranhar a hospitalidade de um homem que vivia sozinho numa casa tão afastada. O jeito como ele lhe olhava foi só mais um dos sinais para que, enquanto se saciasse, ficasse alerta para qualquer coisa que pudesse acontecer.

Ramiro começou a ver algo diferente nos modos dela, parecia outra pessoa, se bem que poderia ser coisa da sua cabeça, nunca confiou muito nas próprias impressões, ainda mais com toda aquela vertigem. Esteve calado desde que ela entrara na casa, e já era noite quando, livre de qualquer pretensão, conseguiu perguntar, no meio de um engasgo, para onde ela estava indo. Adelaide, assustadiça, fez um gesto vago, e Ramiro apontou a rede enrolada no canto da sala. Enquanto ela se ajeitava no leito e relutava em se entregar ao sono, Ramiro, no seu quarto, percebia no meio do seu aturdimento que depois dos quatro anos de um namoro exasperado, e dos quinze, exilado de si mesmo, ele finalmente passaria uma noite sob o mesmo teto que a sua amada Adelaide, e ainda que não dividissem a cama, aquela era uma noite mágica, uma noite muitíssimo esperada, adiada desde aquele sete de maio em que ele não viu a sua noiva entrar com o pai na igreja. E nem poderia, porquê no momento em que ele lá no altar vivia os primeiros minutos de uma via-crucis que já durava quinze anos, Adelaide, longe dali, partia sem saber para onde, no lombo de um cavalo, após ser tirada de dentro da própria casa por um homem, um desconhecido, de quem só se livrou quando, quinze anos depois, conseguiu pular da carroceria de um caminhão que a levava para outro cativeiro. Foi assim que ela bateu a cabeça e, desmemoriada, vagou por vários dias até encontrar uma casa, a casa de Ramiro, para quem trouxe a doce lembrança de que um dia foi vivo.

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