O Destino de Zangão

Meu nome é João Reinaldo de Souza, mas sou conhecido por “Zangão”. Sou lutador de boxe, tricampeão na categoria Cruzador e essa é a última luta da minha vida. Literalmente. Sério, agora estou em uma ambulância sendo levado para hospital. Estou sangrando feito um porco. Sabe aquilo que dizem que a gente vê nossa vida toda passando diante de nossos olhos quando estamos perto da morte? Então, é verdade mesmo. Mas a minha vida está repetindo os últimos trechos, exatamente os acontecimentos que me trouxeram a essa situação.

Sábado passado: Quando fiquei sabendo, através do meu empresário, o “Kalifa”, que o meu adversário na próxima luta seria o “Canhoto”, um novato que é bom de briga;

Domingo passado: Num almoço onde estavam reunidos todos da minha família e a da minha noiva Suellen (estávamos juntos há cinco anos), eu a pedi em casamento aos seus pais. Todos ficaram alegres com a notícia. À noite tivemos tórridos momentos de amor;

Quinta-feira: Pela manhã, eu estava na academia treinando quando Kalifa me liga no celular pra me dizer que viu Suellen saindo de um motel acompanhado de outro homem no interior de um carro. Meu mundo começou a desmoronar a partir daí. Quando eu chego em casa, à tarde, exijo explicações dela e ela desmente a história, dizendo que ela estava em casa o tempo todo e que Kalifa deve ter confundido outra mulher com ela. Esfrio a cabeça e tento me convencer de que ela não estava mentindo. Afinal, estamos há tanto tempo juntos e temos muita confiança um no outro. “E com ela que eu vou me casar e passar o resto dos meus dias, porra!”, pensei.

Sexta-feira: Converso com Kalifa e ele diz que gostaria de acreditar em Suellen, mas que ele tem certeza de que era ela. Eu passo a ficar desconfiado da minha noiva, mas dou a ela o benefício da dúvida e não toco mais no assunto quando eu retorno pra casa.

Sábado, ontem: Numa entrevista à televisão local, Canhoto afirma “O Zangão é um bom lutador, mas ele só é tricampeão porque eu ainda não estava competindo. Ele não se equipara à minha técnica e vai beijar a lona amanhã à noite”. Eu não tinha nada contra o cabra, mas depois dessa, quero ver o sangue dele.

Domingo, hoje, há uma hora: Quando eu chego à arena do local da luta, encontro Kalifa com cara de espanto, e ele me conta que o carro com que o Canhoto veio era o mesmo em que ele viu Suellen na quinta. Minha visão fica turva e sinto o meu sangue ferver. Minha noiva me traindo com o meu maior rival me torna um touro bravo e eu subo no ringue disposto a esmagar o crânio do safado.

Começa a luta. Quebro a defesa do Canhoto com cinco “patadas atômicas” e derrubo-o com um cruzado de direita. A luta continua, e eu me sinto como se fosse o Superman, indestrutível, nunca atingido, extremante rápido. Devem ser os litros de adrenalina que jorram em minhas veias agora. É muito ódio, muita frustração. Canhoto cai de novo, cuspindo sangue e com o supercílio aberto. E eu ainda estou me contendo.

Segundo round. Mesmo ferido, Canhoto volta mais determinado a me vencer, e consegue derrubar minha defesa algumas vezes, mas eu não sinto nada. Nem sequer um arranhão ele me deixa. Só serve pra me deixar mais enraivecido, irracional, e derrubo-o com uma chuva de ganchos e cruzadas e, mesmo caído no chão, subo pra cima dele e continuo batendo, deixando o chão do ringue salpicado de sangue. O juiz tenta me afastar do Canhoto, mas eu acerto as costelas do pobre coitado com uma cotovelada, e ele cai no chão também. Minha meta e destruir o miserável do Canhoto. Ele consegue bloquear os meus golpes e diz “Sim, Zangão… A tua mulher é muito gostosa! Parabéns!”. Agradeço aos céus por ele dizer isso, só assim eu não sentirei nem um pingo de culpa por matar o maldito. Desço mais porrada na cabeça do safado. Só lembro-me do ringue sendo invadido por vários caras e ser atingido por todos eles, a chutes e pontapés. Provavelmente eram amigos ou apostadores do Canhoto. E agora estou aqui. Acabei de ouvir de um dos enfermeiros que o Canhoto está morto. Não resistiu e bateu as botas no ringue mesmo. Que bom. Posso descansar em paz agora.

Uma luz brilha forte e me sinto flutuar em direção a ela…

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