Sinal dos tempos

O tempo parou por exatos três segundos quando o primeiro semáforo instalado na cidade se soltou da base raquítica onde estava preso e atingiu em cheio a cabeça do Prefeito Iguaraci. Foi daquela forma bisonha que uma era chegara a termo diante dos olhos de toda uma cidade. Tão grande o alívio que a pancada causara que a população metera-se num estupor sem precedentes em suas histórias pessoais e coletivas. Enfim, não tinha mais volta, finalmente aqueles tempos de mandados e desmandos, de invencionices e decretos, havia se encerrado de uma vez por todas. E tudo graças àquela obra do próprio prefeito, que num de seus delírios febris, decidiu colocar um semáforo na praça de uma cidade que só tinha dois automóveis, fora o ônibus que fazia a linha para a capital.

Iguaraci se dizia um visionário, um amigo do progresso. De fato, ele era até bem moderno numas coisas, e totalmente atávico em outras. Suas modernices começavam nas duas mulheres que mantinha, sem contar uma terceira, de quem era desquitado. Mas em meio a tanto futurismo, seus arroubos despóticos e o prazer com o poder pleno lhe colocavam no mesmo patamar de um dono de mercearia. Pois foi na capital que os semáforos revelaram-se para Iguaraci como um sintoma cabal do progresso, mais do que um amontoado de prédios, mais do que o rádio. “O ordenamento do trânsito não é só uma questão de conforto: é uma necessidade dos novos tempos”, passou dias repetindo para si a frase como se fosse uma oração com poder de lhe tornar, quem sabe um dia, deputado. Após esvaziar os cofres da prefeitura, mandou instalar o bendito sinal numa das ruas que margeavam a praça da cidade, mais habitada por carroças de jumentos do que qualquer outra coisa no mundo.

No dia da inauguração, Iguaraci sonhou que estava preso num cubículo escuro, agouro que não deu ouvidos. Às exatas três horas da tarde, o prefeito encerrou o discurso e fez sinal para o rapaz responsável pelo motor a diesel que fornecia energia elétrica pela cidade. O moleque mexeu nas traquitanas, puxou as alavancas, ligou os interruptores e o semáforo não acendeu. Irado, Iguaraci correu lá no maquinário e, vendo que o diesel do motor acabara na noite anterior, tratou de improvisar outro discurso, um apêndice que fingiu ter esquecido, pontuado por achaques de desespero e muxoxos infantis. E corria de um lado para o outro, atarantado, gesticulando, pulando, querendo convencer mais a si mesmo do que a cidade de que a instalação do semáforo não tinha sido uma cagada total. Foi nesse momento que se ouviu um tinido em meio aos urros patéticos do prefeito e, como num filme mal montado, o semáforo que estava lá em cima estava agora cá embaixo, sobre a cabeça esmagada do homem com o dedo em riste. Os assessores, confusos com o fim prematuro da solenidade, só tiveram iniciativa suficiente para atalhar com o encerramento da inauguração previsto no cerimonial. “Viva o prefeito”, gritaram. E a cidade, numa salva de palmas, respondeu: “Viva!”.

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