Memórias

Foi acordada pela luz do sol que durante todo o princípio da manhã desbravou cada canto o quarto buscando alcançá-la. Este era seu despertador e uma das razões pelas quais escolheu um apartamento de janelas tão grandes ao mudar-se. Dormia no lado direito da cama de casal por costume, deixando o esquerdo praticamente imaculado como se fosse uma cama separada.

Sempre, antes mesmo de se levantar, ela deitava-se de barriga para cima, certificava-se de que o teto sob o qual dormia lhe era familiar. Então respirava fundo, virava o rosto para a direita e olhava para a fotografia que tinha de si mesma aos dez abraçada com o primeiro cão, um pastor alemão, já velho na época da foto. Passava algum tempo admirando, lembrando.

Lembrar era uma das manias que cultivava com mais cuidado, deixava a carta de uma amiga — já falecida — dentro de uma gaveta no criado mudo ao lado da cama. Ficava ali aberta para que pudesse ler sempre que a visse, sorria, lembrava e a guardava novamente como se não tivesse sido movida. Ao sair do quarto, dava de frente para uma foto que tirou com o irmão, seis anos atrás, a faz lembrar do tempo que passaram juntos antes dele se mudar para a Alemanha e ter a convivência interrompida pela rotina corrida que a vida adulta carrega consigo. Ela se compromete a ligar para ele antes de sair.

Chega à cozinha, abre as portas do armário, procura por uma tigela; após a encontrar, vai até a geladeira e vê folhas de caderno com as receitas favoritas de sua mãe presas por ímãs em forma de animais domésticos. Ali estavam seus dois pratos favoritos, ela vez ou outra atrevia-se a fazer, mas preferia parar e ler para lembrar da vida fácil que levava morando com os pais e da qual tanto reclamava à época. Alguns amigos se preocupavam com esse hábito dela de não se desfazer das memórias, mas não dava bola, a saudade lhe fazia bem.

Abriu a geladeira, pegou uma jarra com suco de laranja e levou até a mesa, deu-se conta de ter esquecido os copos. Apanhou dois, mais um prato e colocou na mesa junto da tigela. Voltou à cozinha, fatiou o pão em vários pedaços para fazer torradas, levou a travessa ao forno, pegou uma caixa de cereais, leite, levou-os à mesa e foi atrás do café. Ajeitou tudo da forma mais organizada a qual foi capaz e foi até a sala.

Lá fez cara feia para a bagunça, pensou em abaixar-se para arrumar as coisas, mas suspirou e chutou tudo em um canto prometendo cuidar daquilo mais tarde. Olhou para o relógio na parede sobre a TV e notou que era nove da manhã. A televisão ligou sozinha, num programa esportivo que passava de manhã e seu pai costumava ver. Ela odiava assistir aquilo, mas gostava de como a fazia lembrar dele e da vida plena que teve.

De volta à mesa do café da manhã, ela senta-se, entorna a travessa de torradas sobre o prato e percebe que esqueceu da manteiga. Segue a mesma rotina anterior até a geladeira e de volta à mesa. Dessa vez, antes de sentar-se, é surpreendida pelos ruídos curtos e abafados de passinhos cheios com pressa e falta de jeito. Recebe com sorrisos um rosto redondo e rosado com dois dentinhos desbravadores na boca e cabelo ralo que gargalha contagiando todo o ambiente e clamando por um abraço com seus bracinhos abertos. Essa era a lembrança que mais prezava, porque foi o presente mais significativo da pessoa mais importante a passar pela vida dela. A razão de ter tanto apego ao passado.

Após um café divertido e a mais árduas das mudas de roupa, ela pega o menino no colo e, certa de que esquecia de algo, o levou pela porta para começar mais um dia.

Conto de @marcorigobelli

 

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