Dias Negros – Capítulo VI: O Dia da Revelação

Gauthier estava debilitado e aproximou-se lentamente de Daniel, que estava acompanhando a batalha das divindades.

– O Espírito Santo está com Ele? – perguntou o ruivo.

– Sim – respondeu Gauthier.

Daniel sorriu por uma fração de segundos e voltou à sua expressão séria anterior, voltando seu olhar na direção dos cavaleiros esqueléticos que estavam pairando nas alturas, também observando a luta, e perguntou:

– Aqueles são os Cavaleiros do Apocalipse, né?

– Sim. Hoje é o dia da Revelação, ou do Juízo Final, como preferir. – respondeu o Filho de Deus.

– Mas está sendo diferente de como está escrito na Bíblia, até onde eu sei.

– Um livro escrito e reescrito pelos homens, aberto a várias interpretações. – respondeu Gauthier.

Em meio aos clarões e estrondos apavorantes, com o Universo prestes a ruir sob a ira dos deuses antagonistas, a alienígena que os ajudou reaparece, e vai de encontro a eles, e disse:

– A luta está equilibrada, mas saibam que continuou torcendo contra o meu esposo.

– Qual o seu nome? – perguntou Gauthier.

Zarad.

Daniel se intrometeu e indagou:

– Por que você quer a derrota de seu esposo?

– Talvez por ele ser um déspota, ou por ser um usurpador… Mas o mais provável é porque ele só tenha deixado dois dos meus filhos viverem, matando os outros que ele considerava fracos.

Silêncio. Daniel sabia que uma mãe que perde um filho se torna uma criatura implacável atrás de justiça, ainda mais sendo ela uma “deusa”.

– Como vocês todos chegaram aqui? – indagou Gauthier.

– Jommarath é uma divindade antiga e seu passatempo favorito é conquistar diferentes dimensões. Digamos que o universo de vocês era o mais importante que faltava para sua “coleção”, e ele esperou por milênios por uma oportunidade como a de agora, já que o deus de vocês é o mais poderoso que nós já vimos.  – respondeu Zarad.

– E estando nós fragilizados pela falta de fé dos tempos atuais, ele resolveu nos destruir… – concluiu o Filho do Homem.

– Você se refere à tríplice divindade da qual você faz parte? Sim, verdade. E matar a maior parte da humanidade foi para garantir que a fé nele fosse drasticamente reduzida e, assim, debilitando seu poder – ela completou.

Daniel olhou para Gauthier e perguntou, em baixo tom:

– Então Deus não é o único deus que existe?

– Longa história, Daniel. Não temos tempo pra isso agora.

De repente, para o espanto do ex-soldado, Lúcifer reapareceu caminhando, com uma mão em seu ventre ferido, ainda com a pele escarlate e com os olhos de fogo.

– E então, como vai essa luta? O velhote está vencendo, né? – disparou ele.

Daniel fechou o cenho e replicou:

– Você também está torcendo para seu maior inimigo?

– Primeiramente, quando esses invasores chegaram, todas as almas impuras das pessoas que foram mortas não estão em meu poder, e depois, se “o cara” for derrotado, todos os reinos, incluindo o meu, estão comprometidos. Então se ele vencer, todos nós ganhamos. Aliás, porque eu estou falando com você, hein?

– Ele é meu amigo e aliado, Cão! – interveio Gauthier.

– Ah, entendi… Ele é seu novo “apóstolo”, não é? E vejo que Vésper andou o usando o rapaz para manifestar seu poder também…

Daniel olhou rapidamente para Gauthier, voltando para Lúcifer, e repetiu o processo mais duas vezes.

– Como é que é??

– Daniel, você é especial, por isso que você está até agora aqui.

Ele ficou contente e confuso ao mesmo tempo, e antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, foram surpreendidos por um clarão intenso, seguido por uma sequência de estrondos ensurdecedores. Era Deus arremessando estrelas no peito de Jommarath.

O rei dos demônios cambaleou por um instante, e revidou, atacando o Criador com uma rajada de matéria escura.

– Desista, deus caído! A sua era nesse plano acabou! Eu não vou poupar você de novo desta vez!

– Eu só vejo um deus caído aqui, e ele é você! – Deus respondeu com um brilho fulgurante nos olhos, e uma luz flamejante tomou conta dos céus onde Daniel e os outros observavam tudo.

O poder liberado foi tão intenso que não se ouviu nenhum som, só aquele clarão mais forte que todos os clarões e que durou uns cinco minutos. Quando a energia se dissipou, no céu não havia mais nenhuma estrela (ou as que sobraram não podiam ser vistas a olho nu), e as duas divindades desapareceram em meio àquela poeira cósmica que se levantava do “local” da batalha.

– Meu Deus! O que aconteceu? – exclamou Daniel, espantado.

Gauthier olhava para o alto e não tinha expressão em seu rosto, e Lúcifer demonstrou preocupação e inquietação, mexendo os braços e dando passos curtos para todos os lados. Zarad pôs as mãos sobre o rosto e começou a chorar, soluçando.

Daniel pôs as mãos na parte superior da cabeça e procurava no céu, com seus olhos marejados, algum sinal do Pai Eterno, e viu os quatro Cavaleiros do Apocalipse darem meia volta e partirem cavalgando dali.

Foi quando Gauthier disse, sorrindo “Vejam!”, apontando para o céu. Era uma luz, que a princípio parecia uma estrela solitária brilhando, começou a aumentar e aumentar e voou rapidamente na direção deles, e era tão intensa que Daniel cobriu os olhos com um braço, e sentiu um forte calor que fez perder seu sentido da audição. Quando ele abriu os olhos, se viu de pé na rua onde morava à época anterior à invasão Gantali, seu bairro estava abandonado e as casas, semidestruídas.

– Mas o que aconteceu afinal? – pensou.

Refeito da surpresa, entrou em sua casa, que estava com vários objetos fora do lugar e tudo coberto por uma fina camada de poeira. Na sala, chorou ao ver o retrato de sua velha mãezinha e seu irmão adolescente. Refez-se da emoção e foi para seu quarto, deitando-se na cama, e passou a imaginar que tudo aquilo que vivenciou nos últimos dias tinha sido apenas um sonho doido com requintes de realismo. Foi quando ouviu alguém chamar seu nome no quintal, e ele foi correndo olhar na janela; viu Gauthier, de cabelos soltos, com vestes brancas e um sorriso largo. Sua imagem era etérea, como se ele fosse uma projeção no ar, não aquele em carne e osso que apertou a sua mão na Europa, dias antes.

– Venha se despedir de seus amigos! – convidou o Filho de Deus.

Daniel, sem entender direito, apenas sorriu, e Gauthier deu um passo para o lado, revelando mais quatro silhuetas translúcidas como ele. Eram sua mãe, seu irmão, Solomon e Amara, todos de branco, sorrindo e acenando para ele. O ex-soldado retribiu os gestos, com lágrimas nos olhos, e eles se viraram e sumiram, sem proferirem nenhuma palavra.

Gauhtier aproximou-se de Daniel e este sentiu aquela mesma sensação tranquilizadora de estar perto do Filho de Deus quando este lutava lado a lado com ele naquele “Exército Santo”.

– Então… Vencemos, né?

– Sim – disse Gauthier.

– Mas como é possível com a humanidade quase extinta? Deus não deveria estar mais fraco agora?

– Zarad estava torcendo pelo Pai, lembra? Digamos que a fé dela supriu essa deficiência.

Agora Daniel pode entender tudo.

– O mundo e o resto da Criação precisarão de um tempo para voltarem ao seu estado normal. Portanto viva a sua vida para tornar esse canto do Universo um lugar melhor. – pediu o Cordeiro.

– Sim.

– E nunca se esqueça de mim e do que você viu, Daniel.

– Pode ter certeza de que não me esquecerei. Eu voltarei a vê-lo?

– Pode ter certeza de que irá.

Sorriu e desapareceu no ar. Daniel sentiu um peso no peito, igual a aqueles que sentimos quando perdemos uma pessoa amada. Ele passou a lembrar de que estava ali graças ao arcanjo Miguel, que o salvou de ser morto do ataque de Kalantit, e que não poderia agradecê-lo mais pessoalmente.

Daniel tentou suprimir as experiências ruins com o sentimento de que ganhou de volta a mais preciosa das dádivas, sua vida, e tratou de vivê-la.

~ FIM ~

Trilha sonora:

Pra quem perdeu os capítulos anteriores:

Capítulo I: Encontrando o Exército

Capítulo II: Batalha em Céu de Ouro

Capítulo III: Daniel na Cova dos Leões

Capítulo IV: Filho, Filho e Espírito Santo

Capítulo V: O Cálice do Poder

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