Branco

Bora João escreve logo isso.

A frase já estava a se repetir fazia cinco anos, mas nada saía daquela cabeça confusa.

Não que João não fosse inteligente, criativo, divertido etc. Ele só tinha branco demais.

Era só querer escrever sobre alguma coisa que as palavras lhe fugiam como o diabo da cruz. Não adiantava dominar o assunto, pesquisar que nem um condenado muito menos se inspirar em outros textos. Nada fazia com que ele tirasse as ótimas ideias de sua cabeça para colocar no papel.

Um dia isso acabou mudando. Num dos dias de branco mais branco que omo e ace juntos, ele decidiu ir a uma festa que um amigo daria. Lá ele acabou encontrando seus amigos descolados, a menina peituda que sempre estava bebendo e reclamando da vida que ele sempre esquecia o nome, seu amigo de infância que agora era professor de sociologia mas que nunca lecionara, mas sempre tinha algo da esquerda pra falar e além disso ele sempre levava bagulho pra qualquer festa, inclusive no aniversário do sobrinho de um ano. Então depois de anos resistindo ele cedeu aos apelos do amigo e deu o seu chamado “primeiro tapa”.

Foi a coisa mais louca que ele já sentiu. Só se lembra com certeza, de ter chegado em casa, ligado o notebook e começado a digitar. Nem lembra o que, mas parecia digitador de filme, mais rápido do que uma pessoa normal fingindo que está digitando alguma coisa. No dia seguinte, acordou com uma fome tremenda e enquanto devorava uma dúzia de bananas, ligou o notebook e a tv. Ao olhar para a tela do computador viu que o mesmo estava em modo de espera. Destravou e viu que ainda estava no editor de textos, uma coluna inteira escrita sobre festinhas na casa de amigos. Um artigo engraçado e interessantíssimo que ele mesmo nem sabia como poderia ter criado aquilo.

Logo associou sua “criatividade instantânea” ao beck que tinha fumado.

Logo estava frequentando as festinha do amigo professor como se não houvesse amanhã e acabou por conhecer o fornecedor do seu amigo. Já não precisava mais interagir pra poder conseguir sua dose de inspiração e cada vez mais ele buscava iluminação na luz verde. Tanto que quando lhe faltavam as ideias começou a dizer que deu verde e já rumava a varanda para seu tabagismo ilegal.

Só que com o passar do tempo ele já sentia a necessidade de mais inspiração, logo agora que ele tinha conseguido um contrato muito bom para escrever um livro e não saía da primeira maldita página. Começou a tratar direto com os fornecedores colombianos, cujo produto era mais puro e no atacado era mais barato. Seu apartamento acabou virando um depósito da erva enquanto ele lutava contra as palavras. Até que num momento de desespero, tinha perdido a conta de quantos tinha fumado, mas ele não ligava e acabou fumando um tablete inteiro pra ver se conseguia uma obra prima digna de Paulo Coelho.

Era sexta feira quando a polícia federal arrombou a porta de seu apartamento e o descobriu no chão só de cueca, afogado no seu próprio vômito ao lado do notebook.

Naquele ano seu livro foi o bestseller mais aclamado.

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