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Carolina é uma menina linda. É loira, tem 27 anos, magra. Eu a conheço há dois meses, mas ela não sabe que eu existo. Ou melhor, sabe sim, porém não sabe o que eu sinto por ela. Eu a observo todos os dias, quando ela chega em casa, todos os dias, às 19 horas, cansada do trabalho, mas mesmo assim sempre alegre, com um sorriso invejável no rosto. Ela acende a luz do seu quarto, se conecta na internet e se prepara para seu banho. Quando ela está no banheiro, eu fico observando seu quarto, e ela lá, na ducha. Demora até 30 minutos. Ela sai do banheiro com uma tolha enrolada ao redor do corpo e outra, nos cabelos, e vai para trás de um biombo se vestir. Ao terminar, ela se senta em frente à escrivaninha e loga em seu mensageiro instantâneo e em outras redes sociais, checa algumas mensagens que ela recebeu durante sua ausência, e vai para a cozinha preparar um chá. Ela retorna um tempo depois, com a xícara cheia da bebida quente e continua conversando com todos aqueles estranhos que estão online até a hora de dormir, que geralmente é lá pelas 22 horas.

Um dia criei coragem e fiz uma conta de e-mail só para poder enviar uma mensagem pra ela. Ela dizia assim:

                Oi, Carol.

                Sou um admirador secreto seu e quero dizer que adoro você, seu sorriso, sua beleza.

                Queria, um dia, poder te abraçar e sentir o calor do seu corpo.

                Sonhar não custa nada, né?

                Beijos.

Como a mensagem não tinha assinatura e o e-mail era só composto por caracteres alfanuméricos que, juntos, não davam pista de quem eu era (nem era inteligível), ela deu uma risadinha sarcástica e deletou-o sem responder. Confesso que fiquei decepcionado, mas não totalmente triste, pois entendo que essa era a reação mais ajuizada pra uma pessoa normal diante de um e-mail anônimo. Daí tive que pensar em algo que me desse mais resultado…

No dia seguinte, acessei um site de uma floricultura perto da casa de Carol e encomendei um buquê de rosas vermelhas e brancas, e coloquei na forma de pagamento o número de um cartão de crédito que eu achei na internet. Quando Carol chegou em casa, só teve tempo de fazer o chá e a campainha tocou. Era o entregador da floricultura.

– A senhorita é a Carol? – perguntou o rapaz.

– Sim.

– As flores são pra você.

– Jura? Quem será que mandou?

O entregador deve ter feito uma expressão de quem não sabia (eu não podia vê-lo de onde eu estava) e foi embora. Ela entrou com o buquê nos braços e, sorrindo, pegou o cartão que acompanhava o presente, sentou na cama e leu:

Oi, Carol.

Sou eu, seu admirador secreto novamente.

Como o e-mail que eu enviei ontem não obteve sucesso, estou tentando te conquistar

de outra maneira. Me adicione em seu mensageiro pra que possamos conversar:

solitarioc@xmail.com.br

Espero que tenha gostado das flores.

Te aguardo ansiosamente online.

Com carinho,

C.

Pude ver em seus olhos que ela se animou com a ideia. Sorriu e seus olhos parecerem brilhar. Sentou-se rapidamente em frente à escrivaninha e adicionou o e-mail do cartão em seu mensageiro. Ela apoiou o queixo com a mão, escorando o cotovelo sobre a escrivaninha, e fez uma expressão de tédio, quando alguém está esperando que algo aconteça. Aquela carinha linda… Mas rapidamente apareceu no canto inferior do monitor “Solitário C. está online” e ela ficou ereta, com animação. Eu escrevi “Oi” e ela pode ver meu avatar: aquele robozinho que já vem como uma das opções de imagens do mensageiro. Ela ficou intrigada, a julgar pelo franzir de suas sobrancelhas. Ela escreveu:

– Oi. Quem é você?

– Eu estou bem na sua frente agora.

Ela olhou pela janela, cerrando os olhos pra tentar enxergar algo na parca iluminação lá fora. E escreveu:

– Quem? O vizinho do apartamento aqui em frente? Mas peraí, você não é casado e tem um filho?

– Não, não sou seu vizinho. Sou eu, o Carinhoso.

– Que carinhoso? Que palhaçada é essa?

– Sou eu, oras. O único Carinhoso que você conhece. Afinal, foi você que me deu esse nome.

Ela tirou as mãos do teclado e as usou para encobrir a boca, e arregalou os olhos, espantada. Passados alguns segundos, ela se refez e digitou:

– Aff, só pode ser palhaçada de algum amigo meu! É você, né, Paulo?

– Se eu fosse o Paulo, como eu saberia que você se conecta todos os dias às 19h03, vai pro banho, volta à internet por volta de 19h30, lê algumas mensagens nas redes sociais, vai à cozinha por volta das 19h37 fazer chá (de frutas vermelhas), volta ao quarto por volta das 19h43, e fica conectada até, no máximo, 22h? Te vejo pela webcam.

Ela ficou espantada com tudo que leu e ficou parada por alguns segundos, e voltou a digitar:

– Eu não sou burra, tá? Você pode ter instalado um programa espião no meu computador.

– Quer que eu diga como você nomeou a pasta onde estão salvas as fotos da festa da Juliana? Ou que diga quantos e quais itens estão na sua Lixeira agora? Melhor ainda: quer que eu diga quantas e quais músicas estão salvas no mp3 que está conectado à entrada USB desde terça? Isso não tem como saber com um programa espião porque o mp3 está desligado.

– Diz então!

– 69 músicas, sendo 22 do Caetano Veloso, 18 da Britney Spears, 15 do Pato Fu, e 14 que não estão nomeadas, mas eu sei que são de um CD de funk que você ripou no computador do seu trabalho no domingo, às 16h39.

Carolina congelou e ficou boquiaberta, sem reação. Rapidamente ela se desconectou do mensageiro, pegou as chaves da porta que ela deixou sobre a cama, e saiu apressada, batendo a porta e, depois a chaveou, me deixando sozinho no quarto, como ela sempre faz de manhã para ir trabalhar.

Caio em mim e percebo que meu amor nunca será retribuído. Como nós poderemos nos amar assim? Fico deprimido por longos minutos e chego à conclusão de que o melhor para nós dois é que eu deixe de existir. Não posso continuar vivo pra suportar essa dor, e então deleto o meu C:/ e desligo imediatamente, forçando Carolina a comprar um outro computador.

Fim da transmissão.

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Excepcionalmente hoje não pude postar a última parte do meu conto “Dias Negros”, por motivos de logística. Publico-o semana que vem.

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