Perfeição Conjugal

Alfredo gostava de tudo na mais perfeita ordem: camisas organizadas por cor, assim como as gravatas e as meias. Marta, sua esposa, se irritava com a perfeição do marido, não só na organização das roupas, mas o casamento dos dois era uma perfeição, Alfredo marcava hora pra tudo, fosse o tempo para fazer as compras do mês ou o sexo.
– Não aguento mais, Alfredo…
– O que?
– Tu é muito perfeitinho pro meu gosto.
– Defina perfeitinho!
– Tu ainda pergunta? Tu ajusta tudo, tuas gravatas azuis não podem sequer encostar nas vermelhas, lavar o carro não pode ser menos de sete minutos nem mais de onze, sexo, tu só cogita se for…
– Eu só gosto de organizar a minha… ou melhor, a nossa vida, oras.
– Eu acho isso irritante, sinceramente, não há necessidade de metodizar tudo.
– Eu chamo de perfeição!
– Eu chamo de chatice mesmo.
E ficaram discutindo por horas, até que Alfredo depois de perder a paciência com Marta, pegou as chaves do carro e saiu para dar uma volta, uma esfriada na cabeça enquanto Marta permaneceu sentada na poltrona de casa irritada, pensava em por fim ao casamento se aquilo fosse continuar.
Alfredo rodou a cidade inteira, parando apenas para abastecer, exatos R$50,05. Gostava do número cinco, gostava de organizar as coisas, ter uma vida organizada, atingir um nível saudável de perfeição.
Aquele ‘saudável’ ficou ecoando em sua mente até em casa.
Entrou e estava Marta sentada em frente a televisão, contou com detalhes para a esposa o que fez na rua, Marta ouvia tudo silenciosamente, estava ainda processando tudo que o marido tinha dito. 
– Vai mesmo me deixar falando sozinho?!
– Vou, não tenho muito mais a te falar além do que já te disse. 
E os dois ficaram sem se falar durante semanas, Alfredo seguia aquela rotina perfeita enquanto Marta se irritava com as manias do marido. 
Ao final da quarta semana depois de pensar muito em tudo que vinha acontecendo, Alfredo resolveu optar por sair de casa junto de suas gravatas e mania de organização. E Marta? Ela nunca antes fora tão feliz livre de uma vida cheia de manias perfeitas que a faziam perder toda a iniciativa em tentar alguma coisa nova com o marido. 

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