Entre cenouras e discussões de relação

– Uma cenoura Abê, tem certeza?

– Claro querida, porque não?

– Sei lá, todo mundo tem uns fetiches mais…

– Comuns?

– Isso, comuns.

– Pode até ser mas, sei lá, cenouras sempre me despertaram um peculiar interesse.

– Ihhhhh…

– Como é?

– Nada, eu só disse “ihhhhh”.

– E o que tu quis dizer com esse “ihhhhh”?

– Nada, foi só um “ihhhhh”, larga de ser bobo homem.

– Bobo nada, Maria Angélica, tu quis dizer alguma coisa.

– E quis mesmo.

– O que então?

– Ihhhhh, oras. Um “ihhhhh” é sempre um “ihhhhh”.

– Não senhora, um “ihhhhh” pode representar tanta coisa…

– Tanta coisa tipo o que?

– Surpresa, isinuação…

– Só isso?

– Como só isso?

– Só isso, oras.

– Abelardo, porque pra ti tudo tem que ter uma explicação mais complexa ou mais detalhada?

– E porque tu sempre tem que falar dos meus fetiches com esse “ihhhhh” insinuando alguma coisa?

– Eu não insinuo nada, só acho que tu exagera um pouco as vezes.

– Eu exagero? E aquela vez que tu inventou de encher meu corpo de salame, queijo e…

– Ah, era só uma tábua de frios erótica, oras…

– Mas é nojento.

– Nós nos conhecemos num sushi erótico, lembra Abê?

– Ah, mas daí é diferente.

– Diferente porque?

– Porque é uma mulher e…

– Que coisa mais machista, Abelardo.

– Posso concluir?

– Pode.

– Então, mulher não é tão nojento quanto homem, é mais limpinha, essas coisas…

– Tu quer dizer que tu não toma banho regularmente?

– MariAngélica, não tenho mais doze anos, é óbvio que eu tomo banho todos dias.

– Seeeeei…

– Porque tudo que eu digo tem que virar deboche, hein?

– Como assim, tudo que tu diz?

– Primeiro foi aquele “ihhhhh” agora esse “seeeeei”.

– …

– Não vai dizer nada?

– Não.

– Porque?

– Porque? Porque cada coisa que eu falo tu toma como ofensa.

– …

– …

– …

– …

– Meu bem… benzinho… vamos esquecer essa discussão toda? Não estamos chegando em lugar algum.

– Tem razão fofo, a gente ta aqui com um propósito e acabou discutindo a relação por bobagem.

– É! Nem lembro porque começamos tudo isso.

– Por causa das cenouras, lembra?

– Ahhh sim, é mesmo, as cenouras.

– É.

– Pensou no assunto?

– Pensei.

– Então, vai te vestir de cenoura para mim essa noite?

– Pode ser… Mas tem uma condição.

– Qual?

– Tu te veste de rabanete qualquer dia desses?

– Tudo bem.

– Jura?

– Juro. Vamos bsucar a fantasia de cenoura então?

– Vamos! Te amo, Abê!

– Também te amo, Gélica!

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