Dias Negros – Capítulo V: O Cálice do Poder

– Lúcifer aliando-se a Jesus para resgatar Deus está no topo da lista das coisas que eu nunca imaginei que fosse acontecer – pensou Daniel, enquanto acompanhava os outros. Gauthier, Lúcifer e o restante do “Exército Santo” estavam no mais alto dos planos superiores, onde se encontrava o Trono dos Céus e onde Jommarath mantinha Deus como refém.

– Se Jommarath fosse mais poderoso que o Pai, ele já teria o executado e há essas horas seria o rei desta dimensão. – afirmou Gauthier, que completou:

– Como isso não é possível, o deus-demônio está mantendo o Pai Eterno cativo para não ser diretamente ameaçado.

O lugar onde se encontravam tinha uma beleza ímpar, como se estivessem no espaço sideral, rodeados por uma malha infinita de estrelas de todos os tamanhos e cores, e nebulosas e quasares, mas mesmo assim havia uma luminosidade de origem desconhecida que deixava a paisagem como se fosse uma manhã de outono, e pisavam sobre nuvens levemente púrpuras. Enfim chegaram a um enorme portão dourado que estava escancarado, que fazia parte de um cercado igualmente dourado, que só se revelava aos olhos dos presentes quando esses chegavam perto dele. Protegia um imenso jardim, repleto de árvores das mais belas, possivelmente nunca antes vistas na face da Terra. “Deus deve ter guardado para si as mais bonitas”, pensou Daniel, enquanto trilhavam uma estrada feita de tijolos de esmeralda, que levava a um colossal palácio etéreo de nuvens alvas. No palácio havia diversos buracos, de variados tamanhos, em sua fachada, claramente causados durante o ataque da força usurpadora.

Cruzaram o umbral de uma porta ausente e Daniel, ao entrar no hall, percebeu que ali era mais alto do que parecia pelo lado de fora, sem contar que o teto parecia o céu visto lá da Terra, azul e com uma luz intensa vindo do centro, simulando o Sol. O piso era como um gigante tabuleiro de xadrez.

– Insetos! Vieram morrer pelas minhas mãos após assassinarem meus filhos? – uma voz maldita que parecia vir do nada, com o timbre de uma dúzia de demônios, arrepiou até o último pelo das costas de Daniel.

No ar, à frente de todos, surgiu lentamente a figura de Jommarath, um gigantesco demônio de pele esverdeada, asas de couro e tentáculos na cabeça.

Vésper flutuou rapidamente para o alto, ficando na altura do rosto do demônio invasor, e passou a emanar uma forte luz branca, deixando a todos semicegos, e atacou Jommarath com um feixe luminoso. O deus-demônio não demonstrou dor.

Gauthier, que estava há uns seis metros, piscou para Daniel e correu para frente. O ruivo entendeu o sinal e passou a acompanhá-lo correndo pelo lado oposto, e os dois contornaram o gigante, enquanto que mentalmente repassava o plano combinado anteriormente: enquanto Vésper, Lúcifer, Jorge e os arcanjos restantes distraíam Jommarath em combate, Gauthier e ele se infiltrariam no Palácio Celestial para encontrar e libertar o Criador.

Lúcifer assumiu sua verdadeira forma – uma besta escarlate com forma feminina, asas de couro e fogo vazando pelos olhos e boca – e ficou do mesmo tamanho de Jommarath, e se atracou com o monstro usurpador, e ambos tombaram para fora do palácio, desfazendo uma das paredes de nuvens. Jorge e os outros combatentes atacavam o demônio como podiam no meio daquela confusão.

Enquanto isso, Gauthier e Daniel chegaram a outro aposento e se depararam com um cálice (com tampa), de mais ou menos cinco metros de altura, feito de um cristal negro, e em seu interior uma intensa luz, que brilhava variando sua cor: branca, amarela, rósea e azul.

– Meu Pai está aí dentro – disse um incrédulo Gauthier, com a voz fraca. Daniel olhou para o cálice com os olhos e o coração vazios de esperança.

– Ninguém, nem mesmo você, pode abri-lo, príncipe divino! – disse uma voz alienígena, porém feminina, vinda de trás deles. Os dois se viraram e se depararam com aquela criatura, fêmea e com aspecto frágil, mas ainda sim tinha os traços que lembravam um pouco Yorg, o primeiro dos filhos de Jommarath que foi morto por Jorge e Gauthier. Daniel levantou seu rifle em direção à alienígena, mas parou com o gesto que o Cordeiro de Deus fez com a mão. Este disse:

– Não, Daniel. Eu não sinto maldade dela.

Daniel ficou confuso.

– O que você pretende, mulher? – perguntou Gauthier.

– Fazer um trato com você.

            E do lado de fora do palácio, a batalha parecia estar ao lado de Jommarath, que não se esforçava para bloquear os ataques de todas aquelas entidades e seres das mais variadas origens. De súbito, abriu os braços e emanou um poder que fez Jorge e Vésper evaporaram-se no ar, e Lúcifer foi lançado longe, inconsciente e sangrando fogo.

– Mas que perfídia é essa? – urrou o demônio, que direcionou seus passos para o palácio.

            Instantes antes, a tampa do cálice estava no chão, e na sala estavam só Gauthier e Daniel, olhando para o objeto, e a luz passou a escoar belas bordas lentamente, como se fosse gelo seco evaporando, e aos poucos formou-se uma silueta masculina feita de luz, que ergueu suas palmas abertas em direção a Gauthier, e disse:

– Filho!

– Pai!

– Você sabe que vou precisar de todo o poder para enfrentar meu inimigo, certo?

– Sim. – respondeu o Filho do Homem, e fechou os olhos, e uma aura luminosa ao seu redor surgiu. Gauthier parou de brilhar e caiu de joelhos no chão, enquanto a silueta luminosa transformou-se num senhor de longos cabelos e barba brancos, e que usava uma coroa dourada e vestes esvoaçantes. Daniel ficou atônito.

– Meus filhos foram feitos à minha imagem e semelhança, lembra-se? – disse Deus.

Daniel respondeu com um sorriso.

– Daniel Salamander, obrigado por tudo! Agora vou enfrentar o verdadeiro Satanás.

– Mas eu conheci Lúcifer! Não era ele, ou ela que..?

Deus cresceu e rompeu o teto do palácio, e Daniel pode ver, através do rombo na construção, que Jommarath já estava perto, e Deus avançou sobre ele, queimando o demônio com o seu toque. Os dois iniciaram um violento combate corpo a corpo, e um forte abalo atingiu o solo, como um terremoto. Daniel correu para fora da construção e viu os dois deuses crescerem ainda mais e agora pareciam estar usando o Universo inteiro como campo de batalha. O ex-soldado olhou para o lado oposto, acima, e viu quatro guerreiros-esqueleto, montados cada um sobre um cavalo-esqueleto, pairando na abóbada celeste e observando o evento.

– É o fim de tudo – pensou.

Trilha sonora:

Pra quem perdeu os capítulos anteriores:

Capítulo I: Encontrando o Exército

Capítulo II: Batalha em Céu de Ouro

Capítulo III: Daniel na Cova dos Leões

Capítulo IV: Filho, Filho e Espírito Santo

 

 

 

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