O relojoeiro

Era uma manhã de outono sem muito sol, mas tomada por brisas que com alegria e displicência tocavam todos os lugares que delas precisavam. As brisas agora viajavam por uma rua minguada de asfalto acinzentado devido ao tempo e cercada em ambas as laterais por calçadas igualmente estreitas, uma ladeada com um morro baixo e outra com um declive levemente íngreme. Ambas mostravam-se bem maltratadas, repletas de rachadura, poeira e tudo o mais que homens e aves poderiam deixar como uma lembrança de sua passagem. Podia-se notar prédios e casas em toda a região, algumas lojas pequenas, padarias, bares, lanchonetes. Era um lugar cheio de vida de sua própria forma.

Por ali trafegavam uns poucos carros, mães levando os filhos até a escola, bêbados que não percebiam a passagem do tempo, trabalhadores de uma construção algumas quadras à frente atrás do café da manhã e alguns idosos em suas rotineiras caminhadas matinais. Dentre todos esses, destacava-se um Menino que andava com passos apressados em suas curtas perninhas, ignorando carros, pessoas, brisas, as folhas do outono. Por vezes trombou com algum outro pedestre, atravessou a rua sem se dar ao trabalho de olhar para os lados como a mãe lhe ensinara. Tudo o que fazia era procurar o final da rua e olhar para um relógio de bolso que descansava em suas mãos rechonchudas. Tamanha era sua preocupação com este relógio tão velho quanto belo, feito em prata e com entalhes em todo seu redor, que seu rosto desenvolvera rugas, marcas, tomara até um tom mais acinzentado. Em nada parecia ter os dez anos dos quais sempre se orgulhava tanto.

As pessoas nas quais esbarrava percebiam e tentavam perguntar ao Menino o que aconteceram, mas ele sequer respondia com um aceno de cabeça, só continuava seu caminho. Ele conhecia a região, morara a vida toda nela, sabia que não existia alguém capaz de concertar o relógio, mas planejava levá-lo até a casa de um amigo, o pai dele deveria conhecer um relojoeiro que o ajudasse.

No final da rua havia uma praça, era conhecida na região por ter tornado-se tão malcuidada com o tempo. Antes era bela, e num dia como aquele estaria repleta de folhas amarelas, cães e crianças. Só que não mais, naquele dia era cinza, suja, sem vida.

O Menino não percebeu quando entrou na praça, só desviou sua atenção do relógio quando notou um banco feito com ripas de madeira e pintado em verde, lembrou-se de quando era mais novo e brincava com uma bola quase tão grande quanto ele era enquanto seu pai ficava ali, sentado só observando e rindo. Namorando aquele momento como se precisasse lembrar-se dele cada dia de sua vida nos mínimos detalhes. O Menino nunca entendeu aquilo, mas gostava do sorriso que o pai não escondia.

A lembrança o fez olhar novamente para o relógio que permanecia da forma que o havia deixado: marcando nove e dezesseis. Isso obrigou uma lágrima a descer pelo rosto agora um pouco corado. Então outra acompanhou, seguida de mais uma e outra, até que tornaram-se um fio de lágrimas descendo pelas bochechas até o queixo arredondado. Fez o que pôde para secá-las com o braço, então resolveu sentar-se no banco.

Lá soluçava olhando para o relógio enquanto tentava se controlar com algum sucesso. Quando a vista já não estava mais embaçada pelas lágrimas teimosas, deu uma boa olhada em seu redor e imaginou que estava perdido. A praça era bela como não se via há meses, flores num canteiro logo atrás do banco, esquilos corriam pelo gramado bem cuidado à sua frente, o ambiente parecia mais quente e aconchegante do que há alguns minutos atrás, obrigou-o a arregaçar as mangas da camiseta. O Menino sentia-se em uma manhã de primavera.

Tudo ali era muito bucólico e, de certa forma, coberto por uma névoa leve que exaltava ainda mais todas aquelas cores. Os verdes saltavam aos olhos, os brancos reluziam, os tons de vermelho pareciam tão vivos que se falassem não seria surpreendente. Os perfumes eram tantos que ele mal sentia-se capaz de identificá-los, notava cheiros de rosas, o frescor das figueiras, o constante cheiro de grama molhada que te faz querer dormir. Seus olhos brilhavam, dessa vez não pelas lágrimas, mas pela magia que aquele lugar transpirava. O Menino nunca gostara tanto de se perder.

Entre tudo isso, ele mal notou que no centro da praça estava um Velho sentado. A presença do homem o fez sentir-se ao mesmo tempo assustado e confortável. Aquele senhor era magro, tinha rugas expressivas que eram quase capazes de contar a história da sua vida. Ele estava vestido com roupas formais e uma boina de tons que variavam entre o castanho, o verde e o branco e pareciam quentes e confortáveis. No rosto carregava um pár de óculos largos com aro redondo e padrão de madeira. Seu olhar parecia ao mesmo tempo distante e atento enquanto observava um beija-flor bebericar nas flores da grande figueira que cobria toda a praça com sua copa frondosa e verde esmeralda.

Toda essa cena parecia bucólica e surreal aos olhos do Menino. Em boa parte pela mesa, uma tábua fina de madeira em forma de círculo sobre um tronco cortado de árvore onde o Velho descansava seus braços e batucava com os dedos de ambas as mãos. Ele sentava-se em uma tora de madeira cortada na altura certa que tinha uma réplica no lado oposto ao qual o Velho estava. O mais estranho em tudo é que nenhum prego podia ser visto, ou mesmo algo que prendesse tudo, pareciam ter nascido daquela forma e estavam satisfeitos com a aparência que tinham, porque firme como concreto toda aquela armação era, mesmo parecendo ser tão frágil que o soprar do vento desmancharia toda aquela pintura. O Menino teve a impressão que tanto as cadeiras e mesas quanto o Velho ali haviam nascido e de lá jamais saído.

O Menino assustou-se quando notou que a atenção do Velho subitamente mudou para ele, com um olhar inquisitivo, desafiando-o a dizer qual seu propósito naquele santuário.

Nenhuma palavra foi trocada nesse meio tempo, ambos se analisavam, mas um impulso tomou o Menino que súbita, mas timidamente estendeu os braços com o relógio descansando nas mãos e os colocou sobre bancada enquanto era acompanhado por aqueles olhos ao mesmo tempo curiosos e cheios de respostas. O Velho deixou escapar um sorriso de satisfação, desapoiou os braços da mesa e excitado esticou os dedos, esbugalhando seus olhos por trás dos óculos enquanto analisava o aparelho.

O Menino assustou-se ao ver os braços do Velho tremendo como varas pelo esforço de levantar. Ele sentiu pena, pensou em pedir para que o Velho não se importasse com aquilo, que iria levar o relógio até alguém que pudesse consertá-lo.

Mas antes de conseguir se manifestar, o menino ouviu os dedos do velho estalando em uma cacofonia surpreendente e seus braços tornando-se tão ágeis quanto era possível a um homem ser. Assim que tocou no relógio, o Velho habilmente desmontou-o peça por peça, vez ou outra buscando a ajuda de alguma ferramenta que saltava de seus bolsos.

Notava-se que ele dava atenção especial para cada um das peças, apanhando-as e observando-as por minutos que ao Menino assemelhavam-se com horas.

Quando o relógio inteiro estava sobre a mesa completamente desmontado como em um quadro abstrato ou um manual técnico, o Velho notou o Menino ainda de pé, observando boquiaberto. Ele deu um leve tapinha na cabeça por sobre a boina e pediu para que o jovem se sentasse, desculpando-se pela falta de educação.

Ao sentar, o Menino apoiou-se sobre a mesa com a intenção de dizer para o Velho qual o problema com o relógio. O movimento foi respondido com um aceno firme da mão do Velho enquanto com a outra ele ajeitava os óculos. O menino, sem entender muito bem, obedeceu e sentou-se preocupado.

O Velho observou as peças estudando-as e as organizando em uma lógica que para ele era claríssima enquanto que para o Menino não fazia sentido. Os olhos do homem deslizavam por toda a área sobre a mesa de madeira, analisava e lia cada uma das peças, quando apanhava alguma para dispô-la no lugar que lhe era cabido, passava algum tempo tateando e conversando com aquela pequena engrenagem ou pedaço moldado de metal. Até que de súbito, quando todas estavam sobre a mesa, colocadas em círculos quase perfeitos formando uma espiral na ordem de uso de cada uma delas, o Velho apanhou duas engrenagens, três pinos e uma minúscula placa de prata. Levou-as ao bolso da camisa e trocou por novas idênticas.

Então, como um regente em uma orquestra, o Velho começou a transformar aquele amontoado de coisas em algo. O relógio tomava forma novamente com uma rapidez assustadora, a destreza do relojoeiro encaixava, rosqueava e apertava cada engrenagem e peça em seu devido lugar. O Menino apenas observava tudo intrigado e maravilhado com o que ele só podia descrever como mágica.

Durante isso, ambos conversavam sobre tudo aquilo que fosse possível a dois estranhos discutirem. O Menino soube que o Relojoeiro morava por ali havia vinte anos, quase o dobro que ele tinha de vida, que o Homem foi dono de uma loja de relógios, o quanto gostava do tempo e o quanto a isso se dedicava. Descobriu que o Velho acreditava ter nascido com um dom para isso, mas quem lhe ensinara o ofício fora o pai, que por sua vez aprendeu com o tio, que aprendeu com o pai.

O Jovem, por sua vez, contou que nasceu naquele bairro, as aulas favoritas, que o relógio foi de seu pai e era a única lembrança que tinha desde que ele faleceu, por isso achava importante que o aparelho continuasse funcionando e porque para ele parecia que o pai morria outra vez junto com o relógio. O Menino disse também que o aparelho tinha mais de cem anos, um período de tempo que ele conseguia medir, mas era jovem demais para entender.

O Velho vez ou outra interrompia o diálogo empolgado por mostrar os detalhes do funcionamento daquela obra de arte, como ele mesmo chamava. Como cada peça era capaz de se comunicar por si ou pelo todo, como cada engrenagem era fundamental para seu funcionamento e como, em muito, era parecido com uma pessoa. Até que em um momento a conversa parou bruscamente porque o assunto acabara e nenhum dos dois tinha ideia de como seguir com ele.

Enquanto montava, o Velho analisava novamente algumas das peças, colocava-as em seu devido lugar dentro do relógio, gastava algum tempo e então retirava-a e a trocava por outra igual. Até que, entre uma dessas trocas, uma engrenagem relativamente grande escapa de sua mão sendo seguida pelos olhos curiosos do Menino, porém sem receber qualquer atenção do Relojoeiro que só pede para o Garoto apanhá-la, sendo prontamente atendido.

Num pulo, o Menino levanta do banco e começa a vasculhar o chão de concreto ladeado por duas cercas baixas e pequenos jardins desenhados com grama e flores.

O Menino passa minutos que pareceram horas procurando pela engrenagem, até que, quando a encontrou, ouviu a pancada abafada do relógio contra a mesa, uma forma do Velho dizer que o serviço estava terminado. Quase não cabendo dentro de si, o Menino saltou sobre a mesa e apanhou o relógio. Quase escorregou no chão, mas foi seguro pelo Relojoeiro que o olhava com um sorriso satisfeito difícil de disfarçar estampado no rosto.

O Menino analisou o relógio, percebeu que ele parecia ter acabado de ser fabricado e funcionava perfeitamente! Ele ficou tão eufórico que se esqueceu de devolver a peça perdida. Tentou sem sucesso arrancar do Velho como ele tinha conseguido aquilo. Mas a única resposta que teve foi: O relógio me contou.

Antes que pudesse perguntar qualquer outra coisa, o Menino viu que horas eram e assustou-se por estar atrasado para o almoço em quase duas horas! Ele estava tão eufórico que quase esqueceu de pagar ao Relojoeiro e não notou a alegria que o homem compartilhava.

Enquanto assistia as comemorações do Menino, o Velho ajeitou os óculos, recolheu as peças que restavam sobre a mesa e analisou suas ferramentas.

O Menino chegou em casa quase explodindo de alegria enquanto era recebido pela Mãe ao telefone, preocupada e irada pelo sumiço dele. Ele mal deu ouvidos, tudo o que conseguia fazer era mostrar o relógio para ela que também animou-se ao vê-lo funcionando. A Mãe perguntou como conseguiu aquilo.

Ele então contou a história, quão triste estava, que ia procurar o pai do amigo, que por acaso acabou dentro da praça onde encontrou o Relojoeiro e de como por mágica ele consertou o relógio.

A Mãe estranhou, morava ali há muito mais que vinte anos e nunca tinha visto ou ouvido falar de algum velho relojoeiro. O único relojoeiro da região tinha sua oficina bem além da praça, mal dava-se para chegar a pé sem levar algumas horas e ele jamais consertaria um relógio tão antigo como aquele de uma hora para outra sem encomendar peças e analisar o defeito.

O Menino então se indignou, discutiu com a mãe, afirmava a verdade em tudo o que vira e que o próprio relógio funcionando como novo era a maior prova disso. Então resolveu voltar lá com ela, mostraria o Relojoeiro e ela mesma agradeceria a ele.

Ao voltar para a praça, o menino quase deixou o relógio cair de suas mãos quando viu que ela agora era cinza e suja como o mundo que a cercava. O Velho não mais estava lá, nem a mesa ou mesmo as cadeiras, nem o beija-flor. A figueira era agora um toco seco e sem vida, nem mesmo lembrava a árvore majestosa que era algumas horas atrás. A grama era marrom e o banco de tiras de madeira estava podre e aos pedaços. Era agora um monte de nada tão melancólico que fazia sentido ninguém nunca prestar muita atenção na praça. A visão entristecia o Menino, sua Mãe e qualquer um que por acaso resolvesse observá-la com mais cuidado.

O lugar não era mais nem metade do que o Menino viu e experimentou. Era como se nunca tivesse estado lá, mas ele tinha certeza de que não havia verdade nessa possibilidade.

A praça estava como sua mãe disse, mas não como ele viveu.

Conto gentilmente cedido por @MarcoRigobelli

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