Dias Negros – Capítulo III: Daniel na Cova dos Leões

Ao acordar, Daniel se viu de pé em um campo verdejante, com árvores de todas as espécies cercando-o, e o lugar era iluminado por uma luz forte, morna e embaçada. Aquela paisagem era bonita, calma e acalentadora, e ele acordou feliz sem saber por quê. Podia ouvir alguns pássaros cantando belamente ao fundo, e ele iniciou uma caminhada lenta e exploratória. Daniel viu uma pomba branca voando em sua direção e pousando num arbusto próximo a ele. Nisso, ouviu uma voz feminina profunda falando direto na sua mente:

– Se você tiver fé nunca estará sozinho. – E acordou.

Daniel estava sentado numa cela fria e escura, com os braços acorrentados a uma parede. Não tinha a menor ideia de onde estava. Antes que pensasse em gritar exigindo maiores informações aos seus captores (ou “bater com uma caneca nas grades”), ele foi surpreendido com a chegada de quatro alienígenas humanóides com um só olho no meio da testa e uma só asa de couro (como gárgulas ou dragões ocidentais), só a esquerda, e garras e dentes – kit básico de monstros assustadores. Um deles falou algo numa língua incompreensível e outro deles o repreendeu, dizendo, na língua-pátria de Daniel:

– Não use nosso idioma santo na frente desse verme! Ele não merece ouvi-lo! – E olhou para o soldado, dizendo:

– Humano, você sabe por que está aqui?

Daniel engoliu o espanto com saliva (já que nunca ele tinha visto um desses monstros falando antes) e disse:

– E eu deveria? Foram vocês que me capturaram. Digam vocês!

– Você é a nossa moeda de troca, nossa garantia de que os soldados a serviço de seu deus não tentem frustrar nossos planos. Vamos mantê-lo vivo até achar que eles não representem mais perigo para nós.

– Puxa, que sorte a minha! – pensou Daniel. E completou, perguntando ao demônio:

– E quem são vocês?

– Nós somos o que, na sua língua, seria chamado de “elite”. A Elite Gantali.

– Pff! E vocês acham que podem com meus amigos? Vocês não viram ainda do que eles são capazes! – E enquanto Daniel se vangloriava, o monstro, que parecia ser o líder da Elite Gantali, abriu a cela com um gesto e entrou nela, se aproximando do humano.

– E você conhece o poder de Lorde Kalantit? E do nosso Senhor Todo-Poderoso? Seus deuses e semideuses remanescentes não são páreos para eles! – disse isso socando o estômago de Daniel, que gritou e ficou grogue com a dor.

– Nada me impede de eu me divertir com você até lá. – disse o demônio sorrindo, e desferiu mais um golpe no soldado.

Gauthier e o restante do “exército santo” mal tiveram tempo de pensar em algo para encontrar Daniel. Foram imediatamente emboscados por uma horda da Elite Gantali.

– Fomos denunciados! Provavelmente pelos demônios que estavam me torturando! – exclamou Miguel.

– Mais dragões! – disse Jorge, sorrindo.

E todos mergulharam na batalha sangrenta, que durou cerca de 30 minutos. Até mesmo Gauthier e Jorge tiveram dificuldade de derrotar seus oponentes. Seis humanos foram mortos e quatro arcanjos ficaram gravemente feridos. Após a erradicação do último alienígena ciclope, Amara, trocando o cartucho de seu rifle, perguntou a Gauthier:

– Senhor, precisamos resgatar o Salamander! Já tem ideia de como podemos encontrá-lo?

– Sim. Jorge! Miguel! – chamou o Filho do Homem. E seus amigos atenderam-no, aproximando-se dele.

– Podemos tentar localizar Daniel pela energia emanada de sua alma se juntarmos nossas forças. Se ele estiver no plano celestial – o que eu acredito fortemente que sim – será melhor ainda. – disse Gauthier, dando suas mãos aos dois.

Daniel despertou e estava num semibreu, mal podendo discernir as formas do cenário ao seu redor. Forçou os olhos tentando ajustar sua visão para enxergar algo inteligível. Não sentia nada e levantou-se, mas hesitou em caminhar. Foi então que tudo ao seu redor começou a clarear lentamente e ele se viu no céu dourado onde estava antes de ser raptado, mas lá não havia ninguém. De repente uma luz intensa desceu do alto bem na sua frente e do meio dela um vulto começou a materializar-se gradualmente, e logo nele viu uma silhueta feminina.

– OK, esse é outro sonho. – pensou.

A figura a sua frente estava completa: uma mulher, com vestes parecidas com as daqueles filmes bíblicos chatos que ele era obrigado a assistir quando era criança, esvoaçantes; ela tinha cabelos castanhos ondulados, amarrados no alto, pés descalços e pele rosada, talvez sendo a mulher mais bonita que ele já viu na vida.

– Você poderá fazer o inconcebível se permitir que eu esteja ao seu lado, criança. – disse a figura, numa voz doce e ecoante.

E Daniel acordou. Estava sangrando e com dores em todo o corpo.

– Ah, claro que eu posso! Ai! – disse o soldado em seu estado deplorável. Olhou a sua volta e mal pode acreditar no que via: estava livre dos grilhões e sua cela estava escancarada, e sem o menor sinal dos Gantali. Levantou-se com dificuldade, apoiando-se na parede, e gemendo, caminhou para fora do cativeiro. Havia dois corredores, um à direita e outro em frente. Escolheu seguir reto, pois os alienígenas vieram pela direita antes de eles o torturarem.

Quando chegou perto da porta, que não tinha maçaneta, ela evaporou-se e ele pode ver que estava no alto de um castelo feito de nuvens escuras sobre uma cordilheira de nuvens azul-petróleo, num céu noturno semi-iluminado. Passou pela abertura e iniciou a descida por uma ladeira serpenteante rumo à vastidão nebulosa, quando foi avistado por alguns vigias alienígenas, que gritaram uns aos outros naquela língua gutural e desconhecida, apontando para Daniel.

– Certo, era o que eu precisava: ferido, desarmado, sem Jesus pra me salvar e sendo perseguido por aliens loucos! – resmungou, correndo e mancando para longe dali.

Um Gantali deu um rasante por sobre sua cabeça e Daniel rolou pra frente, rapidamente. Levantou-se a uma velocidade impressionante e espantou-se: arregalou os olhos e sorriu. Mais três demônios voadores vieram em sua direção: o primeiro, Daniel acertou com um chute no melhor estilo Van Damme, usando a perna esquerda; o segundo, ele segurou pelo pescoço, parando-o em pleno rasante, e o jogou ao chão; mas o terceiro rasgou o peito de Daniel com suas garras, que revidou com um soco, afastando o Gantali, e recuou, pondo a mão em seu tórax sangrando.

Gauthier, Miguel e Jorge estavam com os olhos cerrados e ainda de mãos dadas, em círculo, quando uma aura luminosa emanou dos dois últimos citados. Os três abriram os olhos e entreolharam-se.

– Isso foi o que eu estou pensando? – perguntou o Santo Guerreiro.

– Sim, Jorge. Isso também explica porque você está entre nós e com os poderes restituídos. – respondeu Gauthier, que completou: – Amigos, aproximem-se, pois é chegada a hora! – ordenou ao restante do grupo. Todos aproximaram-se e, pousando as mãos sobre o trio, sumiram todos num clarão.

Reaparecem todos no mesmo cenário em que Daniel trocava socos e pontapés com os invasores alienígenas.

– Daniel! – gritou Amara, que correu na direção do ruivo atirando em seus oponentes.

– Pensei que vocês tivessem me esquecido! – reclamou o esfarrapado soldado.

Todos entraram na luta, que prosseguiu por mais ou menos 5 minutos, quando foram todos interrompidos pela chegada aterrorizante de um gigantesco monstro: Kalantit, o último filho de Jommarath. Só era possível ver seu busto acima das nuvens.

– Que deleite é ver que o rebento do deus caído veio com seus amiguinhos direto para as minhas mãos! Pereçam agora por tal ousadia! – disse o gigante com sua voz barulhenta e infernal.

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