O fim das pessoas

“Se a União Soviética acabou, se os Beatles acabaram, se até Lost acabou, por quê o meu namoro não poderia acabar?”, Marcela perguntava, incrédula, à uma amiga. Para ela, parecia estranha a comoção que o fim do seu relacionamento vinha causando nos seus círculos de convivência. Não imaginava que as pessoas torcessem tanto pela sua felicidade ou julgassem a sua relação tão inabalável (alguma é?). Muitas vezes, Marcela se sentia como se tivesse arranjado uma deformidade e onde quer que andasse as pessoas não conseguissem disfarçar o horror que a sua nova aparência causava. Será que era assim com todo mundo? Nunca tinha reparado. Ela mesma já presenciara vários finais de namoro, bastante penosos inclusive, e é até natural isso gerar alguma preocupação por parte dos mais próximos. No geral, as reações solidárias não iam muito além de um susto de lamentação, seguido por alguma referência ao poder cicatrizador do tempo, para terminar em alguma mensagem animadora e igualmente oca do tipo “vai ver não era para ser” ou “agora é bola pra frente”. Só que agora, no seu caso, quem vinha lhe consolar acabava sempre descambando para intensos interrogatórios a respeito de como ela estava se sentindo e, principalmente, sobre o que motivou o fim.

Primeiro que não havia o que falar. Pelo menos nada de substancioso. E essa ausência de um motivo concreto que justificasse o término era até meio constrangedora. Com o tempo, tamanho o rigor das abordagens, Marcela começou a se divertir com o mistério que provocava sem querer. Mal percebiam que, diante das respostas que teimavam em ser vagas, eram eles que iam ficando mais expostos a cada pergunta que faziam. “Mas são uns filhos da puta mesmo”, Marcela quase podia ver as bocas salivando em busca de uma história cabeluda, de traição, em que ela encarnaria o papel da mulher-vítima-eterna, iludida pelo amor a um cafajeste mentiroso, quando na realidade tudo passara bem longe disso. Está certo que foram mais de três anos de namoro, é inevitável bater um sentimento de perda, há o peso de todas aquelas lembranças, mas é preciso lidar com o fato de que um relacionamento amoroso pode se esgotar, que sentimentos podem se modificar, e virar, entre outras coisas, uma grande amizade. Seu namoro havia terminado com a mesma franqueza e tranqüilidade com que começara, coisa estranha para a maioria, que acha que um fim deve implicar sempre em brigas e gente saindo magoada. “Não foi litigioso”, dizia ela para uma platéia desconcertada.

Aquilo era uma verdadeira aula de antropologia. Marcela percebeu que uma parte das pessoas praticamente exigia dela uma atitude desesperada, chorosa. Não aceitavam nem acreditavam que o humor dela pudesse estar tão bom enquanto atravessava essa fase. Na falta de alguma fragilidade ao alcance, de alguma ferida aberta pra cutucar, o foco invertia, e o “fracasso” de Marcela se tornava um pedestal onde eles podiam subir para exibir suas medalhas de campeões conjugais, de seus relacionamentos perfeitos, descritos de forma grave e pausada para no fundo convencer mais quem falava do que exatamente quem ouvia.

– Mas meu namoro deu certo. Por três anos. – dizia Marcela.

Quando a conversa precisava ser interrompida, ficava no ar a idéia de que Marcela estava bancando a durona insensível e blasé, mas ela e seu ex sabiam que não era isso. “É que o pessoal tá mais pra ‘A Usurpadora’ do que para Caio Fernando Abreu”, disse ele.

Marcela explodiu numa gargalhada.

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