Neblina

Sentia-se estranha desde que fora do orfanato para a então descoberta casa da tia, que nunca ouvira falar. Quando o ônibus em que estava, praticamente vazio, exceto por ela, pelo motorista magrelo e alto e um garoto de capuz azul, entrou na cidade, a única coisa que ela pode notar foi a neblina, que parecia estar por toda a cidade. Imaginou se era algo típico da região, afinal ela era montanhosa. Provavelmente era isso. A segunda coisa que notou foi que parecia uma cidade fantasma. Não era muito populosa, talvez isso ajudasse. E pensou que talvez ninguém se animasse em sair de casa com tanta neblina.
Sentou-se na rodoviária. Imaginou que a tia fosse buscá-la, mas depois de uma hora de espera indagou-se se deveria pegar um ônibus de volta pro orfanato ou ligar pro número de contato que lhe deram antes de sair. Será que realmente havia alguém pra cuidar dela ou estavam querendo se livrar dela no orfanato?
Ligou pro número. Tocou até cair a ligação. Nem conseguia acreditar. Parada numa rodoviária no meio do nada e sem saber o que fazer. Então uma mão a tocou no ombro e ela lentamente virou-se para ver quem era. Só poderia ser sua tia. E era.
“Você é a Katherine?”
“Ahn. Sim. Você é minha…minha tia Clarice?”
“Sei que não nos conhecemos, Katherine, sua mãe nunca foi muito chegada na própria família, mas estou aqui para levá-la para sua nova casa. Fica um pouco afastada da cidade, mas acredito que irá gostar do ar daqui.”
No carro, em direção ao seu novo lar, notou no centro da praça um grande sino dourado. Pensou em perguntar pra que aquilo servia, mas resolveu ficar calada. Percebeu que a neblina não se dissipava, mesmo se afastando da cidade. Será que era assim sempre?
A casa tinha um tom fúnebre, toda de madeira, pintada de um vermelho ferrugem, agora já desgastado. Aliás, a casa toda parecia desgastada. Ao menos havia eletricidade. Seu quarto ficava no segundo andar, cheirava mofo, a cama rangia. Ainda assim era melhor do que a cama do orfanato. Deveria ficar grata pelo lar que lhe fora dado. Desfez as malas e colocou sua roupa no surrado guarda-roupas que havia. Sentou-se de frente à penteadeira e notou uma foto antiga com duas meninas.
“Sua mãe e eu” – Disse Clarice.
“Oh! Por que mamãe saiu da cidade?”
“Katherine, há algo que preciso lhe dizer. E peço que cumpra rigorosamente.”
“Tudo bem, o que é?”
“Você jamais deve sair de casa ao escurecer.”
“É muito perigoso por aqui?”
“Sim. Jamais saia à noite.”
“É sempre nublado por aqui?”
“Sempre.”
O problema de Katherine era justamente lhe dizerem pra não fazer algo. Não que não temesse retaliações, mas a curiosidade e a vontade de viver perigosamente soavam sempre mais apetitosas do que cumprir o que lhe fora dito. Estava destinada a sair à noite de casa, no mesmo dia em que chegara, para explorar o que poderia haver de tão assustador. Provavelmente algum animal silvestre, nada que pudesse temer tanto assim. Havia mais animais dentro do orfanato do que poderia haver ali no meio daquele nada nas montanhas.
Esperou sua tia adormecer e desceu nas pontas dos pés aquela escada que rangia, abriu e fechou a porta da frente tão lentamente que deve ter perdido meia hora só nisso. Foi até a garagem e pegou uma velha bicicleta e uma lanterna. Começou a percorrer no sentido contrário pela estrada que levava à casa, recoberta por uma grama que quase atingia sua própria altura. Como alguém poderia ser assim tão relaxado pra deixar a grama nessa altura? – pensou.
Notou, uns 20 minutos depois, que já estava próxima do centro e não havia realmente ninguém na rua. Nem um carro, moto, nada. Nem ao menos cachorros ou gatos. Chegou na praça central, a que tinha o sino, encostou a bicicleta no banco e resolveu se sentar. O que havia de tão perigoso?
Foi quando ouviu algo, meio que sem querer, bater no sino, fazendo com que ele emitisse um som abafado. Ela se levantou abruptamente.
“Oi? Há alguém aí? Oi?”
Ouviu passos. Eles se aproximavam, mas ela não conseguia ver, estava escuro, a neblina pesada. Aliás, agora parecia que a neblina a sufocava e tinha um cheiro ácido. Viu algo se mexer, não sabia se deveria se aproximar ou correr.
Então ela viu claramente… pegou sua bicicleta e num esforço tolo tentou fugir, mas era tarde demais, ele já havia a pegado.
O sino tocou. Todos os moradores ouviram de suas casas. Alguns rezavam, outros se perguntavam quem poderia ter sido desta vez, outros apenas ouviam em silêncio.
Ninguém deve sair na neblina.

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