No Divã

Era uma sala de espera como todas as outras. Não que ele tivesse passado muito tempo em alguma outra para ter um parâmetro, mas ver as revistas de fofocas e esportes jogadas na mesinha de centro, rodeada por sofás brancos surrados, paredes também brancas, com alguns quadros que ele não se deu ao trabalho de observar e a música de fundo… Ah, a música… Era uma mistura de música de elevador com alguma rádio dos anos 90. Não era de todo ruim, mas preferia estourar seus tímpanos com lápis bem apontados do que escutar por muito mais tempo esse som. E isso deve significar alguma coisa.

Felizmente o pequeno som da porta do consultório se abrindo e o “Até logo” dado pelo paciente que saía o distraiu tempo o suficiente antes dele próprio entrar na outra sala.
Diferente da primeira, essa sala tinha um aspecto mais aconchegante, mas também não se ateve a detalhes, logo se sentando no divã e observando o Doutor. Mal conseguia ver seus olhos por debaixo dos pequenos óculos já que o mesmo estava abaixado, escrevendo algo com interesse. Esperou em silêncio por uns momentos até que, vagarosamente, o Doutor subiu o olhar, baixando sua caneta e também o observando, com um sorriso.

“Olá” – disse primeiro, seguindo com perguntas básicas como está o tempo lá fora e todo o tipo de trivialidades pré consulta que não irei me ater aqui. O importante foi o que se seguiu.

Ele, recostado no divã, foi questionado com um aparentemente simples “O que te aflige?”

Ora essa, se ele soubesse não precisaria de um psicólogo. Não que realmente achasse que precisava de um, mas tinha tempo o suficiente para ter uma consulta, para então realmente descobrir do que precisava.

“Bem” – começou, mas parou pra pensar antes de complementar – “A vida se tornou um tédio” – Quis ser o mais simples e sucinto o possível, para evitar perguntas que não fossem levar a lugar algum.

“E por que você acha isso? Rotina?” – questionou o Doutor, anotando algo em seu bloco de notas.

“Pode-se dizer que sim. Eu já vivi muito, fiz diversas coisas… Amei, sofri, sorri, cho.. ahn.. fiquei mal… o importante é que agora as coisas meio que perderam o gosto que tinham antes.” – parou novamente pensando nos sentidos dessa frase e se fora seu subconsciente, aquele intrometido, quem havia falado.

“Entendo” – começou o Doutor. – “Seu trabalho e família não conseguem te dar algum prazer novo?”

Seu subconsciente riu com a menção de família. Seu consciente também. Sua face segurou o riso e falou – “Bem, meu trabalho continua sendo interessante. Mas faço ele já faz anos. Muitos anos. E infelizmente não me atenho muito a laços familiares.”

Enquanto o Doutor fazia anotações sobre o que foi dito, ele olhava seu relógio. Estava ficando com fome e o tempo que ele achava que era o suficiente parecia pouco agora. Não estava ali para conversar de sua vida. Pelo menos não queria fazer isso.

“Já pensou em parar de trabalhar um pouco e passar um pouco mais de tempo com você? Procurando descobrir algum passatempo ou habilidade nova?” – Perguntou novamente o Doutor, cruzando as pernas e esperando por mais material para colocar em seu bloquinho. Sua mente parecia uma festa com tantas gargalhadas. Foi realmente burrice ter procurado um psicólogo, mas iria continuar por enquanto.

“Ah, eu acho que eu morreria se não fosse pelo meu trabalho…” – parou um pouco, pensando, e logo se sentou ereto no divã, olhando para as paredes cheias de estantes e livros, continuando a falar com pouca emoção – “O Sr. tem medo da morte, Doutor?”

O Doutor, que acabara de escrever algo, parou para observa-lo antes de responder “Muita gente teme a morte; é uma coisa normal.” – Isso o fez pensar… Ele já tinha escutado isso e sabia que era verdade. A morte era uma coisa terrível de mais para se enfrentar e as pessoas só tinham uma chance para faze-lo. E normalmente perdiam o embate. Era de se esperar que todos tivessem medo dela. Até mesmo os que tecnicamente já estão mortos. Então seu desconforto deveria ser normal, afinal, uma hora ou outra alguma coisa poderia acontecer e não há nada a se fazer, somente viver até lá, aproveitando sempre, como um dia havia feito.

Com esse pensamento, se levantou. – “Obrigado Doutor, de verdade.” O Doutor se espantou um pouco com o impeto dele, mas se refreou, simplesmente baixando sua caneta enquanto ele se aproximava com um sorriso. – “Como pagamento, vou tirar um pouco do seu medo da morte também.”

Dito isso, fez seu trabalho. Rápido como uma bala, moveu-se até o Doutor, mordendo-lhe o pescoço e sugando sua vida, como água que escorre pela torneira, e colocando um pouco de sua morte no lugar, deixando o atônito, e aparentemente morto, Doutor deitado em seu próprio divã. Arrumou sua gravata, limpou a boca devagar e sussurrou. “Eu mudaria meu horário de atendimento agora, só por precaução”. Pegou as anotações do Doutor e rasgou a página que dizia, no topo, ‘Primeiro dia – Paciente gostaria de ser chamado de Drácula; Não quis passar seu nome verdadeiro.’ e saiu para a sala de espera vazia. Não antes de ter destruído aquela abominação que o Doutor chamava de rádio. Aquelas ‘músicas’ não saiam de sua cabeça e isso estava arruinando seu humor.

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