Mind.

I woke up one day and I didn’t know where I was.

I knew who I was, but I was at some random spot that I couldn’t recognize. So I got up and walked around, looking for something or someone.

A guy was staring at me from very far away. I waved my hand at him, but he didn’t wave back.
I screamed, but he didn’t say a word. I stayed there for a while, he smiled and disappeared. It looked like that because I couldn’t see where he had gone.

I understood where I was and felt so lonely. I laughed and my laugh became a sob and then I started to cry. I was lost.

And I would never come back again.

A verdade é um negócio do qual não dá pra fugir

“Talvez eu não vá mais embora”, disse ela secamente, quando o carro parou. Para qualquer homem apaixonado, ouvir isso seria como tocar o Céu, mas pra Armando, que de fato estava apaixonado, foi o início de um desassossego sem tamanho, sem precedentes. Até então, saber que Emília iria embora em um mês lhe deixava um tanto mexido, mas ao mesmo tempo a certeza de sua partida iminente era tranquilizadora pois lhe absolvia da culpa que o assaltava naquela sua primeira escapada. Tudo ficaria restrito àquele único encontro fugaz que guardariam pro resto da vida quase como um sonho. Seria como se não tivesse ocorrido. Mas parece que ele pressentia, ainda chegou a imaginar essa possibilidade: e se depois ela não fosse embora, como é que ia ser? Casado com uma, enlouquecido por outra. Ele não pensava em abandonar seu casamento, mas sabia que Emília era do tipo que lhe atraía facilmente. Aliás, já estava apoderado por ela desde o primeiro dia, e agora, após aquele que prometia ser o primeiro e último encontro íntimo, ele via que ela era muito mais magnética do que poderia supor.

Mesmo assim, ele preferia a idéia de que ela iria embora logo em seguida, e pra sempre, e o máximo que ficaria de tudo isso seriam aquelas poucas horas que acabaram de ter. Mas aí ela vem com essa, talvez ficasse na cidade, e seria uma questão de tempo para estarem incorrendo no mais deslavado e absoluto adultério, na lascívia continuada. Seria a instituição da luxúria, imperdoável e criminosa. Ele não queria isso, mas a verdade era que não se seguraria caso ela permanecesse por perto. Daí o seu tormento quando ela lhe falou que poderia não ir mais embora. Não sabia o que pensar. Era assim que entendia como uma coisa poderia ser boa e ruim ao mesmo tempo. Não só ruim, como terrivelmente ruim, mas as compensações… Ah, as compensações, maravilha era pouco. Enfim, já se viu mentindo, inventando histórias, tendo sustos, se escondendo, tentando abafar de todo jeito a vida paralela de libertino que se desfraldaria no próximo telefonema.

Quando chegou em casa, encontrou a esposa dormindo. Com o remorso lhe fervendo as orelhas, entrou nas pontas dos pés, trocou de roupa no escuro, mas ela acabou acordando. “Se quiser jantar, eu deixei lasanha no fogão”, disse ela com voz de sono. Ele concordou e, sem dizer nada, se deitou ao lado dela. Quando ele terminou de se cobrir, ela se virou como se tivesse lembrado de alguma coisa. “Eu te amo, sabia?”, disse ela de olhos fechados, e ele respondeu que também a amava, e do fundo de sua alma atribulada ele sabia que não estava mentindo.

O Jogo

– Você quer? – ele perguntou, disposto a servi-la

– Quero – ela respondeu, meio sem jeito

– Então pede!

– Não!

– Mas você não quer?

– Quero, mas não sei pedir…

– Então se você não sabe pedir vai ficar sem nada.

– Tá, vamos pra um lugar menos movimentado, não quero que ninguém nos veja.

– Entra aqui.

Viraram à direita na próxima esquina, ao invés de seguirem por aquela rua. Ela adorava este jogo. Sabia muito bem como jogá-lo e na maioria das vezes saía ganhando. Pararam em um canto escuro.

– Me beija.

Beijou-a com ímpeto, seu corpo já respondendo aos estímulos que ela lhe proporcionava.

– Me abraça.

Estreitou-a em seus braços, protetor e afobado, como se quisesse violentá-la ali mesmo, mas ao mesmo tempo como se quisesse defendê-la de si próprio.

– Me dá sua mão.

Ela conduziu lentamente as mãos dele. Das suas costas para os seios, dos seios para os quadris. Ele não aceitou perder o controle da situação. Enfiou a mão por dentro da calça jeans apertada que ela usava.

– Ei, devagar, pode aparecer alguém!

– Não vai aparecer ninguém. A gente vai perceber se alguém vier.

Os dois estavam estrategicamente posicionados em um espaço entre dois prédios, que tinha algumas plantas e arbustos; um pequeno jardim para enfeitar o muro externo. Dois pinheiros e uma outra árvore formavam um triângulo, um esconderijo perfeito para eles. Beijaram-se durante algum tempo, trocando gemidos e carinhos abaixo da cintura. Ele abriu o botão da calça.

– Nem vem. Aqui não. Pode aparecer alguém.

– Só um pouquinho, rapidinho. Dá um beijinho aqui.

– Então pede!

– Não senhora, este jogo é meu!

– Ou pede, ou fica sem…

– Põe a mão aqui dentro.

Ela enfiou a mão direita dentro da calça dele, enquanto a esquerda afagava seus cabelos e provocava arrepios em sua nuca. Não precisava mais de comandos, já sabia exatamente o que fazer a partir dali: pedir algo que o agradasse.

– Me fala aquelas besteiras todas.

– Achei que você não gostasse.

– Agora eu gosto.

Ela não gostava. Achava sujo. Achava-se uma puta quando ria das sacanagens que ele lhe sussurrava ao ouvido. Mas adorava, porque assim ele lhe roçava a barba bem junto ao lóbulo esquerdo da orelha. Mal sabia ele, mas a consequência da costumeira preguiça de barbear-se causava nela arrepios indescritíveis. Em um destes arrepios ela soltou um suspiro.

– Você já foi?

– Já, sim.

– Mentirosa.

Ele a beijou novamente. A boca, o queixo, o pescoço e o ombro. Olhou em volta, não havia ninguém na rua. Mesmo o vigia noturno que costumava passar por ali a cada meia hora parecia ter se atrasado,  como que adivinhando a cena e não querendo se intrometer. Intensificou o ritmo da língua em sua boca, e dos dedos em seu clitóris. Sentia que ela respondia, sentia também o seu coração bater mais rápido, mas só parou depois de ouvir um gemido abafado. Ela se deixou cair nos braços dele.

– E agora?

– Sim.

– Tá vindo alguém. Bora sair daqui.

O vigia noturno não viu nada, a não ser um casal que se abraçou e continuou a andar, naquela rua onde não passava muita gente. “Lugar estranho para namorar… Embaixo da câmera de segurança?”

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Contribuição de: LP.

Destino crônico

“Parece um boneco”, disse a menina ao passar com a mãe ao lado do caixão do ditador. Essas palavras, ditas sem malícia, sem leviandade, quase como um muxoxo, ainda que imperceptíveis para a maioria dos chorosos, conseguiram sair altas o suficiente para chegar aos ouvidos de um dos Chefes do Estado Maior que estava ali velando o seu comandante de uma vida inteira. Políbio Suarez, vencendo o aperto dos botões do seu fardão e o peso das suas dezenas de insígnias, abandonou o seu posto entre os convidados de honra para aproximar a vista do ditador morto, para constatar, com curiosidade, de onde a menina tirara tal disparate. Ainda naquela noite, após o épico enterro do general, com praticamente todo o país debruçado sobre a cova de mármore, talvez mais pra se certificar de que ele tinha ido de uma vez do que para exatamente guardar uma última imagem, Políbio reunira às pressas os seus companheiros de armas e, com um murro na mesa, iniciou a reunião extraordinária. “Chega de farsa. Onde o General está escondido?”, bradou para o prédio todo escutar.

A pergunta de Políbio foi o estopim para a maior crise de poder jamais enfrentada por aquele pequeno país em seus confusos 500 anos de história. Após inúmeras discussões, missões diplomáticas, reuniões, e bate-bocas, os nobres homens não souberam chegar a um consenso sobre o paradeiro do General, já que para alguns ele saíra em sigilo do país, enquanto que outros ainda carregavam no braço a fita preta em sinal de luto. O certo é que depois que o General, já com a cabeça raspada, comunicou a nação que estava com uma doença muito grave, suas aparições públicas nos últimos dez anos foram ficando cada vez mais raras, ao passo que os seus decretos, muitas vezes estapafúrdios, nebulosos, saíam cada vez mais freqüentemente e cada vez com menos rejeição da maioria. Isto porquê, apesar de todas as ameaças de golpe e da popularidade quase subterrânea, para aquele país de brutos tão amáveis não convinha contrariar o General, pois, ao que se sabia, ele já estava às portas da morte.

Cerca de sete meses após o enterro do general, com a nação à deriva e com o governo nas mãos de um conselho onde um membro mal lembrava dos nomes dos outros, a população fora convocada quase que em tom de ameaça para ir às urnas escolher o novo mandatário do país, numa lista de candidatos que ninguém conhecia. A maioria dos votantes sequer sabia ler o bastante para escolher uma das 17 opções na cédula, algo que nem imaginavam para que serviria. Depois de mais oito meses de apuração, o novo comandante daquele país, a quem deveriam chamar de presidente, desfilava em carro aberto pelas ruas da capital, diante de uma população que comemorava sem saber ao certo porquê. E o cerimonial nem se preocupou em manter a massa muito distante do carro presidencial, pois àquela distância, dificilmente achariam alguma semelhança entre aquele que acenava sorridente e o antigo general, de quem ninguém nunca havia chegado perto e que todos achavam que tivesse morrido.

O Peculiar Reino de Ganimédia*

Um jovem de cabelos ruivos estava deitado com a cabeça sobre o peito de um homem mais velho, de cabelos e barba negros, e ambos estavam nus e suados, cobertos por um lençol em uma suntuosa cama. Tinham acabado de fazer amor. O mais velho se chamava Gorgel, e o jovem, Juliano. Gorgel nada mais era do que rei da Ganimédia, o mais próspero e poderoso reino do Ocidente. E Juliano era o seu atual conselheiro real.

– Você se lembra como nos conhecemos? – perguntou Juliano ao seu rei e amante.

– E como eu poderia esquecer, amor? – respondeu, voltando sua mente ao passado.

Dois anos atrás, no castelo do Rei Marlon, da Lavínia, o Rei Gorgel fazia sua primeira missão diplomática naquelas paragens, devido ao atual crescimento de influência que o reino lavínio tinha entre os pequenos reinados do Ocidente.

Gorgel também estava lá para tratar com o Rei Marlon uma aliança para o iminente avanço das tropas invasoras orientais. Após debater os assuntos burocráticos com o rei lavínio, Gorgel foi levado pelo mesmo ao Salão Comunal e viu o Príncipe Juliano pela primeira vez.

– Tão belo, jovem, gracioso, com seus trajes despojados, cabelos vermelhos caindo sobre a testa, exalando carisma… – descreveu o apaixonado Gorgel.

Juliano riu e replicou:

– Eu notei na hora que você não tirava os olhos de mim. Foi então que eu comecei a reparar em você e perceber que como aquele homem forte e distinto poderia ser mais interessante que qualquer rapariga que eu já havia corrido atrás no Reino de Lavínia.

Em menos de uma semana depois da visita de Gorgel, Juliano recebeu uma carta dele, onde ele descrevia o que sentia e suas reais intenções, deixando o príncipe atônito e ao mesmo tempo feliz. Marlon também recebeu uma missiva do regente da Ganimédia, solicitando a presença de Juliano em seu castelo para tê-lo como seu conselheiro real, estreitando assim os laços entre as duas nações.

Gabus, o atual conselheiro de Gorgel, foi deposto e rebaixado a duque, ganhando uma boa porção de terras como compensação, e participava de algumas reuniões dos fidalgos quando o rei precisava de opiniões diversificadas, como uma assembléia.

– E do dia em que você me nomeou arquiduque? Lembra de como Gabus ficou puto da vida? – perguntou sorrindo um nostálgico Juliano.

Gorgel gargalhou e revisitou suas memórias.

Há um pouco mais de um ano, Gorgel, cansado de esconder o que estava vivendo com Juliano, reuniu os fidalgos para anunciar que o seu jovem conselheiro era agora o Arquiduque de Senária (em homenagem ao Passo de Senária, local onde ficava a fazenda do rei e onde eles desfrutavam de seus momentos secretos), e deixou subentendido que os dois mantinham um matrimônio.

Gabus levantou-se da mesa, ofendidíssimo, e vociferou:

– Mas isso é um ultraje! Como pode o rei da Ganimédia destituir-me do posto de conselheiro real para em seu lugar colocar esse jovenzinho que mal entende da vida, e ainda por cima deitar-se com ele todas as noites como seu ele fosse sua esposa! Estamos condenados a ser amaldiçoados pelos deuses a viver sob a égide de dois reis e nenhuma rainha?

Todos os fidalgos ficaram horrorizados tanto com essas informações quanto com a ousadia de Gabus levantar-se contra o soberano. E os soldados, leais ao rei, aproximaram-se do velho exaltado, de lanças em riste. Gabus não se intimidou, e prosseguiu:

– E pelo que vejo vossa excelência real não deixará herdeiros para o trono, deixando o nosso reino à mercê de conquistadores! Eu me recuso a viver neste castelo e cuspo sobre tudo aquilo que vier do trono da Ganimédia! – concluiu o velho, cuspindo sobre a mesa.

Gorgel manteve a compostura, mas não podia esconder uma veia saliente em sua fronte, e respondeu:

– Gabus, vou lhe dar duas opções para tamanha traição e ousadia: ser decapitado ou encarcerado.

 ♦

– Você teria decapitado o velho se não fosse a minha intervenção, não é mesmo, querido? – indagou Juliano.

– Era o que ele merecia por me desprezar e me humilhar diante dos outros súditos. – Gorgel usou um tom mais grave para responder.

– Jamais deixaria meu amor e senhor matar um homem por ele ser ignorante e preconceituoso, mesmo eu tendo sido ofendido no processo. – disse Juliano.

– Já matei por muito menos, amor. E na guerra ceifei muitas vidas para defender meu trono. – respondeu o rei.

– Nesse caso é diferente. E lembre-se de que foi com a minha chegada que você mudou sua política de vida, tornou-se mais justo, e até ensinou aos seus soldados que se todos os irmãos de armas ganimedianos se amassem como nos amamos, teríamos o exército mais imbatível que já caminhou sobre a Terra. – concluiu Juliano, deixando seu senhor e amante cheio de orgulho.

Depois de alguns segundos de silêncio, enquanto recebia um cafuné de Gorgel, o jovem arquiduque perguntou:

– O quê o futuro reserva para um peculiar casal de soberanos como nós, meu rei?

– Do futuro eu nada sei, amor. Só posso garantir a você um presente feliz e com muito amor. – respondeu Gorgel, beijando seu jovem amante e iniciando um novo ritual de prazer carnal.

Dez anos depois, o rei foi acordado de madrugada por um de seus mensageiros e alertado de que o exército inimigo estava a dois dias de distância, e pediu para que o alarme fosse soado e seus homens se vestissem para a batalha. O embate entre os exércitos ocorreu às margens do Rio das Névoas, e o rei, contrariado, foi acompanhado do Arquiduque de Senária ao campo de batalha.

– Jamais deixaria meu rei e amor ir sozinho à guerra. – argumentou Juliano.

A batalha foi sangrenta e durou três dias, tornado as águas do rio vermelhas com o sangue dos caídos. Ganimédia saiu vitoriosa, acossando seus invasores, e não houve festejos pela vitória, pois o Rei Gorgel e seu amado arquiduque tombaram na carnificina. Alguns soldados sobreviventes relataram que encontraram os corpos dos dois de mãos dadas. O trono da Ganimédia passou para Arman, primo e único parente vivo de Gorgel, que era fidalgo de um reino vizinho.

O rei Gorgel pode ter morrido sem ter deixado descendentes, mas foi idolatrado por séculos por ser um rei forte e justo, e a Ganimédia tornou-se um renomado reino nos livros de História de todo o Ocidente por ser peculiar sendo o único que já teve dois reis e nenhuma rainha, período pelo qual era o mais próspero de todos daquela época.

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*O nome do reino fictício foi inspirado em Ganimedes, que na mitologia grega era um mortal que, de tão belo, foi raptado pelo próprio Zeus e passou a viver entre os deuses olimpianos.

Pandora’s Box – 10 – Em Terra

E então desceu do navio, seguido de perto por um sorridente Troy, Morgana e o Doutor. Além deles, uns cinco tripulantes armados. Entre eles aquele jovem do cesto, chamado Rhory. Seus cabelos vermelhos e desgrenhados escondiam seus olhos um pouco medrosos. O mesmo não podia ser dito de seu colete de couro e sua calça larga que não protegiam quase nada por serem feitos de segunda mão e farrapos, como grande parte das roupas dos tripulantes. A única coisa realmente nova que ele levava consigo era sua rapieira. Uma espada comprida e fina, com a empunhadura adornada com prata brilhante era quase grande de mais para Rhory e bem incomum para os piratas, que normalmente preferiam os ‘rudes’ sabres aos floreios da rapieira.

Kyle liderava o caminho com passos rápidos e o mais silencioso que podia por entre a madeira podre do velho porto. Chegaram até o que um dia foi uma estalagem e que agora era habitada por alguns esqueletos e corpos jogados pelo chão. Temendo que tais corpos pudessem acordar, Kyle ordenou que eles ignorassem as casas e, em silêncio, e isso era uma parte importante do plano, fossem até o farol.

Conseguiram passar pelas casas da praia sem problemas e adentraram numa estrada que subia o pequeno morro até o gigantesco farol. Dali em diante, segundo o Capitão, as coisas ficariam difíceis. Ele explica que a ilha toda, que é incrivelmente grande, é um cemitério. Praticamente todo tipo de raça está por ali, bons ou ruins, mas todos tem em comum o pouco apreço por invasores e seres vivos. E eles eram, infelizmente, ambas as coisas.
Caminharam por entre lápides e árvores escuras e mortas, olhando duas vezes antes de dar o próximo passo mas estava tudo calmo.

– Está muito calmo. Até de mais. – Disse Kyle, parando e olhando para o Doutor que observava tudo, checando vez ou outra um grande livro que, de algum modo, guardava nas vestes. E ele respondeu.

– Sim, está. A essa hora já teríamos encontrado, pelo menos, uma pequena horda de zumbis ou alguns espectros.

Essas palavras, por mais consoladoras que parecessem, gelaram a espinha de Rhory e os outros tripulantes. Estavam preparados para o que viesse, mas saber o que pode vir é meio assustador. Kyle parou um pouco e pareceu cheirar o ar ao redor, olhando lentamente para todos os lados, incluindo o chão de terra batida.

– Parece que já limparam o caminho até o farol… Vamos nos apressar. Armas em punho. – Disse essa última parte para seus novatos antes de apressar-se até o farol.

E no farol, coisas estranhas aconteciam. Normalmente o Farol de Hakk é um lugar COMPLETAMENTE apinhado de seres mortos-vivos. Desde zumbis simples até coisas que não tem um nome simples o suficiente para vocês entenderem. Todos seguem as ordens do chamado “Mestre do Farol”, mas alguma coisa aconteceu e o corpo do mestre jazia inerte no chão, no topo da torre. A maioria dos monstros continuam vagando livremente por lá, mas os outros foram trancados nos inúmeros aposentos dali e, um novo “Mestre” estava sentado num trono rústico, cercado pela sua tripulação, sorrindo.

Já no Maelstrom, Trif e Firk se divertiam fazendo poses sentados na poltrona do capitão, mandando ordens ridículas para os outros, fazendo-os rir e amenizando o clima frio que parecia aumentar ao redor deles.

Relato de um homem solitário

Era a quinta cidade, só naquele mês. Aparentemente deserta, como as outras. Desde a contaminação há 10 anos a população foi se extinguindo. Quem sobrava, tentava sobreviver com o pouco que a terra deixava cultivar e os enlatados que restaram. Também  houve a grande guerra, primeiro entre as nações, depois guerras civis. Chamaram a guerra de “guerra da vida”. Com tantas mortes que houveram, é irônico pensar no nome que deram à guerra, mas foi uma batalha para continuar sobrevivendo, daí o nome.

Houve um tempo em que nem os animais de estimação eram poupados. Já não há muito deles agora, somente ficaram aqueles que só alguns conseguem comer. Eu mesmo já comi muitos insetos ao longo dos anos. Tempos difíceis, não se escolhe o que comer.

Não bastasse toda a desgraça, apareceram tribos canibais que caçavam pessoas como se fossem bichos. Nada era relatado na tv, parece que com a comida foi-se grande parte da tecnologia. Ficaram-se os rádios. Assim alguns, por uns tempos, mantiveram contato. Mas os rádios foram também um meio de localizar onde as pessoas estavam e, com isso, as tribos canibais atacavam de surpresa. Hoje não usam mais nada. Às vezes no rádio alguém se despede, depois todos sabem o que acontece: suicídio. Tem que ser muito forte pra continuar vivendo nos dias de hoje…

Era a quinta cidade este mês. Há cinco dias sem conseguir me alimentar direito. Sinto-me um abutre vivendo da carniça que alguém deixou pra trás. Pego o meu rádio, limpo a garganta. Começo a falar sobre a vida na fazenda com meus pais, os tempos difíceis quando me mudei pra capital, da família que perdi, da saudade, do começo da contaminação. Espero alguns minutos antes de me despedir, talvez esperando que alguém que estivesse ouvindo dissesse pra não fazê-lo, mas tudo que ouvi foi o silêncio. Então, como os demais, deixei de existir.

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